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Sem resposta para crise, Bolsonaro apela ao autoritarismo

Maria Cristina Fernandes: Presidente já não tem certeza de que pode ser reeleito
publicado 11/03/2020
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Bateu o desespero?

Maria Cristina Fernandes, no Valor Econômico desta quarta-feira (11/III), faz análise sobre os arroubos do presidente Jair Bolsonaro nesta semana: a suposta fraude na eleição de 2018, já rebatida pelo TSE, e os efeitos do coronavírus na economia:

Se o presidente Jair Bolsonaro questiona o resultado das urnas de uma eleição da qual saiu vitorioso, é de se imaginar o que fará se o próximo resultado lhe for adverso.

Esta é a primeira indagação sugerida pelo discurso com o qual Bolsonaro se dirigiu à comunidade brasileira em Miami na noite de segunda-feira. Falou que poderia ter sido eleito em primeiro turno se as eleições não tivessem sido fraudadas.

Declaração semelhante já havia sido feita antes do segundo turno de 2018. Se, naquela oportunidade, buscava dar sua eleição como fato consumado, agora é o contrário. É o respeito ao resultado eleitoral que deixa de ser um fato consumado.

O presidente disse ter provas de sua afirmação, apesar de não tê-las apresentado. Foi rebatido pela presidente do TSE que afirmou ter provas no sentido contrário. Ao longo de 20 anos de sua existência, as urnas eletrônicas já tiveram sua segurança questionada por muitos, entre os quais o incendiário deputado Jair Bolsonaro. Nenhuma das suspeitas, porém, jamais foi comprovada.

É a segunda vez, em apenas uma semana, que Bolsonaro dissemina a desconfiança nas instituições, mote da manifestação de domingo. A insistência sugere que o presidente, ao contrário de suas afirmações, parece mais preocupado com os efeitos da crise econômica decorrente do coronavírus do que parece. Se as expectativas já pareciam frustradas pelo crescimento de 1,1% em 2019, o vírus agravou os sintomas: o dólar ruma para R$ 5, as estrelas da pauta de exportação do Brasil amargam queda de preço no mercado internacional e a arrecadação pública ameaça despencar em toda a federação.

Na fala de segunda-feira à noite, Bolsonaro mencionou a derrota de Mauricio Macri, na Argentina, e as dificuldades de Sebastián Piñera, no Chile, como cenários a serem evitados. Trouxe de volta o fantasma da esquerda e, com ele, busca reagrupar apoiadores que havia perdido com o desempenho de seu governo.

Se Bolsonaro foi a opção anti-PT para uma parte do eleitorado, para outra o presidente foi apenas a aposta à mão por uma mudança em busca de mais emprego e renda. Se o buraco em que o PT teima em enfiar o próprio pescoço diminui o primeiro apelo, a crise econômica arrisca jogar por terra o segundo. A dois anos e sete meses da disputa eleitoral de 2022, não é uma nova plataforma eleitoral que o presidente parece buscar.

Desde que a eleição direta e universal foi plenamente estabelecida no país com a Constituição de 1988, com a incorporação derradeira dos analfabetos, o voto tem sido uma garantia de que a maioria desassistida de brasileiros pode, uma vez a cada dois anos, se manifestar. Ao longo da história, tem funcionado como uma barreira contra a emergência da extrema-direita no Brasil. Em 2018, Bolsonaro se mostrou capaz de romper esta barreira, ainda que tenha sido o único, na história, a ter sido eleito sem o voto majoritário dos mais pobres. Desta vez, já não parece tão seguro de que venha a repetir o feito. É esta incerteza que move o surto autoritário da semana.