Santayana: a Líbia e a esperteza dos tolos

Sarkozy e Cameron acham que conquistaram a Líbia
O Conversa Afiada reproduz texto de Mauro Santayana, extraído do JB:
A Otan, a Líbia, e a esperteza dos tolos
por Mauro Santayana
O dia 11 de novembro de 1630 foi decisivo para a história da França e da Europa. Nesse dia, em Versailles, um jovem rei, Luís 13, rompeu com a mãe, a Rainha Maria de Médicis, e entregou todo o poder político da França a seu ministro, o Cardeal de Richelieu. Richelieu amanhecera deposto pela Rainha, mas um de seus conselheiros o convenceu a ir até o monarca, e expor-lhe suas razões. Foi uma conversa sem testemunhas. O fato é que Luis 13 teve a atitude que correspondia ao filho de Henrique IV: “entre minha mãe e o Estado, fico com o Estado”.
Ao tomar conhecimento da reviravolta, quando os inimigos do Cardeal festejavam sua derrota, o poeta Guillaume Bautru, futuro Conde de Serrant – um dos fundadores da Academia Francesa, libertino, sedutor, e homem de frases curtas e fortes – resumiu os fatos, ao ridicularizar os açodados: “c’est la journée des dupes”. Em nossa boa língua pátria, “o dia dos tolos”. Ao mesmo tempo em que se vingava da princesa italiana, que o humilhara, Richelieu iniciava uma fase de grandeza da monarquia de seu país que só se encerraria 162 anos depois, com a decapitação de Luís 16.
A história é cheia de jornadas semelhantes. Os planos, por mais bem elaborados sejam, nunca se cumprem exatamente e, na maioria das vezes, se frustram, diante dos caprichosos deuses do inesperado. O caso da Líbia, se o examinarmos com cuidado, está prometendo ser uma operação “des dupes”. Não vai, nesta análise, qualquer juízo moral sobre Khadafi. É certo que se trata de um megalômano, que, tendo chegado ao poder aos 27 anos, provavelmente não estivesse preparado para administrar o êxito que coroou a sua participação na revolta contra outro déspota, o rei Idris. Mas Khadafi não teria sido quem foi, durante 42 anos, se a Europa e os Estados Unidos não tivessem tido atitude sinuosa e incoerente para com o seu regime. Reagan chegou a determinar o ataque aéreo a Trípoli e Bengazi, em 1986, quando uma residência de Khadafi foi atingida e uma sua filha adotiva morreu. Esses ataques, longe de enfraquecer o governante, fortaleceram-no, e desestimularam os poucos inimigos tribais internos.
Os interesses econômicos da Europa, que fazia bons negócios com o dirigente do velho espaço dos beduínos, berberes e tuaregues, ditaram as oscilações da diplomacia diante de Trípoli. A bolsa, sempre pejada e generosa, de Khadafi, favorecia seus entendimentos e os de seus filhos com altos funcionários das chancelarias européias e financiavam festas suntuosas a que eram convidadas as grandes celebridades do show business e dos círculos ociosos da grã-finagem internacional. Enfim, Khadafi fazia o que quase todos fazem. Não é por acaso que Berlusconi sempre o teve como um de seus mais devotados amigos, até que, coerente com seu caráter, somou-se à cruzada contra Trípoli.
Khadafi, por mais insano tenha sido – e todos podiam identificar os sinais de sua mente vacilante – fez um governo de bem-estar social, como nenhum outro da região. Contando com os recursos do petróleo, criou sistema de assistência à saúde que, mesmo restrito aos centros urbanos, tem sido exemplar. Reduziu drasticamente os níveis de mortalidade infantil, possibilitou o tratamento gratuito de toda a população, universalizou a educação, estimulou a agricultura nas raras terras cultiváveis, e fixou salários dignos para os trabalhadores. É certo que se enriqueceu e enriqueceu seus familiares e favoritos, mas os líbios não tinham por que queixar-se de sua política social. Em contrapartida, não admitia qualquer tipo de oposição.
Monsieur Sarkozy, que anda fazendo apostas perigosas com a posteridade, e Cameron, da Grã Bretanha, foram os grandes animadores da intervenção maciça da Otan contra a Líbia. A ocasião era propícia. A Europa se encontra combalida com a crise econômica e o avanço da corrupção está erodindo a coesão de seus povos. O tema é de particular intimidade da França, detentora, na História, dos mais espetaculares escândalos, entre eles o da frustrada construção do Canal do Panamá por uma companhia francesa: a empresa obtivera, mediante propinas a muitos parlamentares, a concessão de uma loteria especial para o financiamento da obra, recolhera investimentos pesados dos homens de negócios europeus e dos poupadores modestos, e quebrou espetacularmente poucos meses depois. Durante muito tempo, “panamá” passou a ser sinônimo, em todas as línguas, de negócios escusos e da corrupção política. Talvez com a única exceção dos tempos de De Gaulle, nunca houve governo na França imune a denúncias de sujeiras semelhantes. A corrupção foi uma das causas da Revolução Francesa.
Quase todos estão saudando a vitória contra Khadafi, mas isso não significa que tenham conquistado a Líbia. São grupos internos de interesses diferentes que se uniram, para livrar-se de um inimigo comum, com o apoio das potências estrangeiras, que bombardearam sistematicamente a população civil – o que, convenhamos, é terrorismo puro. Mas, sempre que as armas se calam, novo e mais complicado conflito se inicia. Quem assumirá o poder? Irão as tribos do deserto, que se relacionam entre elas mediante complexa malha de fidelidade, fundada no parentesco e nas alianças bélicas seculares, unir-se sob um protetorado estrangeiro? É duvidoso.
Há uma questão de fundo, que Sarkozy e Cameron, em seu açodamento, desprezaram. Londres e Paris, pressurosos em aproveitar os episódios dos países árabes, a fim de reocuparem seu domínio colonial, tomando o lugar da Itália na influência sobre a Líbia, esqueceram-se de Israel. Mubarak, do Egito, o principal aliado de Tel-Aviv, e fiel vassalo de Washington, perdeu o poder e corre o risco de perder também a cabeça. Israel tomou a iniciativa de provocar as novas autoridades do Egito ao cometer o ataque fronteiriço, que causou a morte de oficiais daquele país, na pressão para que se feche novamente a passagem aos palestinos. Nada indica que os governos que eventualmente sucedam aos déspotas destituídos no Egito e na Tunísia, e os que possam vir a ser derrubados nas vizinhanças, sejam mais condescendentes com Israel. Até mesmo a Síria é uma incógnita, no caso em que Assad perca o mando. A Itália, acossada pela crise econômica e pela desmoralização de Berlusconi, em lugar da neutralidade, somou-se, na undécima hora, aos agressores.
Os fundamentalistas se somam aos que saúdam os movimentos de rebeldia nos países árabes. A Palestina, por intermédio do Hamas, aplaude o fim de Khadafi. Terá suas razões para isso. E a rede Al Jazeera já está emitindo de Trípoli. Como se queixou Khadafi, a Al-Qaeda não o apoiava.
Enfim, para lembrar o burlador Conde de Serrant, é bem provável que este ano de 2011 fique na história como o ano dos tolos.
Esse texto fala um pouco do óbvio quando o assunto é guerra. Sempre os interesses pertencem e são associados com outras pessoas do que aquelas que realmente estão combatendo.
O interesse dos países europeus é óbvio. Basta esperar agora o leilão de interesses que se seguirá com o pós-guerra (como em qualquer outra guerra).
Quanto as “melhorias” que os libios tiveram com o Kadhafi, não creio que possamos realmente cita-las como vantagens. Creio que o povo líbio não estava tão contente assim.
Levante a mão quem acredita nessa lorota dos ditos países que compõem a OTAN em defender o povo líbio??? Porque eles não derruba outras ditaduras que tem na África que são chefiadas despostas carniceiros??? Resposta! Se nesses países controlados e dominados por sanguinários tiver matéria prima em abundancia ai a história e outra! Vale o sacrifício para derrubar e depois dominar a bel prazer!
Mais uma vez, temos um texto irretocável do excelente jornalista Mauro Santayana.
No meu tempo de menino aprendi que, quando um segura,
p`ra outro bater, era covardia.
A pergunta que não quer calar: Quem vai assumir o poder na Líbia???? Quem venceu a guerra midiática, nós já sabemos. Quem não se lembra da invasão ao Iraque, que davam a impressão da OTAN ter massacrado, e só depois é que o bicho pegou para eles, quando homens bombas invisíveis deixaram quase loucos, as “super potências” hoje, mais pra super patetas(a vitória dos tolos).
Por falar em decapitação e sarcosi as coisas continuam ainda em pauta!A guilhotina combina com a frança aquela dos tolos!
Ótima analise do momento atual. Lembrando-se de nosso Machado de Assis em Quincas Borba: “Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas”. Desde napoleão e os nazi sempre cobiçaram as batatas do leste. Como essas batatas são protegidas por armas do juízo final se voltaram para quem não pode responder a sua superioridade bélica. O resto se faz com marionetes até o dia que o teatrinho perde a graça e a ruina é percebida.
Mais uma vez o Santayana nos brinda com um texto magnífico; usando como sempre sua excelente visão clínica da situação; nos mostrando pontos que nos passam às vezes desapercebidos ou camuflados pelo nosso PIG. Parabéns.
Impecável, mormente pra quem tem o PIG como “fonte”, ler Santayana é um alento.
Anote aí: a união Européia ganhou a Líbia (será? veremos…), mas perdeu definitivamente a África.
Qual nação européia conseguirá ter relações melhores que Brasil e China, no futuro, ali?
Anote aí: a quantidade de países que investirá em arsenais nucleares vai pipocar.
Kadafi renunciou a um programa nuclear promissor. Confiou na ONU. Serviu de quê?
Anote aí: a ONU, já era.
“Conversa Afiada” Este blog não poderia ter outro nome!!! Parabéns MS.
Depois de 4 décadas de Kadhafi, a Folha publica em sua primeira página “Gadafi”!!! é falta de revisor ou ela está querendo criar moda??
E o que dizer dos fundos soberanos da Líbia? Alguém sabe a soma e onde estariam aplicados? Não será esse o motivo da sanha Anglo-italo-francesa?
A Organização Terrorista do Atlântico Norte (em inglês: North Atlantic Terrorist Organization – NATO) fez o serviço sujo para a AlQaeda, ahahahaha!
Novos tempos, guerras financidas por corporações, grandes negócios, o povo que se dane.
Mais de 1 bilhão de dólares que o Kadaff tem em bancos americanos serão liberados pelo governo yankee para a “reconstrução” da Líbia. Adivinhem quem vai ficar com a maioria desse dinheiro? Aposto que será a iniciativa privada estadunidense. Tira-se um ditador do poder e distribui-se a sua grana entre as empresas dos EUA. Negócio da China, viva a democracia neoliberal.
A posição do Brasil em relação ao caso Líbia já foi externada. Concordo com ela!
A nova cruzada está em curso. O objetivo: petróleo (o que mais???)
Que a razão prevaleça. Que a paz vença a guerra!
Que os homens do mundo, se lembrem dos erros do passado.
Parece que nunca aprendem!
“Tudo está consumado” (Tenhamos fé!!!)
Formidável a análise do Satayana.
O Oriente Médio está mudando de forma irreversível.
A França e Inglaterra (e também os Estados Unidos) não estão querendo perder sua influência na região.
Eu acho que já perderam.
Não acredito que os revoltosos, se vencedores forem, deixarão esse abutres dominar seu petróleo.
Osd assassinos israelenses que se cuidem…
As considerações rasas, absurdas, confusas e contraditórias da Sra. Miriam Leitão nesse caso da Líbia chegam a ser preocupantes.
Sem brincadeira, ela está com algum problema sério. Dado o grau de complexidade dos últimos acontecimentos, creio que os mesmos bombardearam sua sanidade mental de tal maneira que ela, que sempre atirou pra tudo quanto é lado, agora atira até pra dentro de si mesma!
Chamem a OTAN!!!
gente, o que terá ocorrido com a AlJazeera de uns meses para cá? ou nunca mais será a mesma?
A cara dos apresentadores do PIG televisivo, ao noticiar a aparição do filho de Kadaff, foi impagável. Tentavam justificar dizendo que ele havia fugido, mas só foge quem esteve preso. O que nunca foi o caso.
Impecável, Santayana, não fosse por um ínfimo detalhe:
“Monsieur Sarkozy, que anda fazendo apostas perigosas com a posteridade, e Cameron, da Grã Bretanha, foram os grandes animadores da intervenção maciça da Otan contra a Líbia.”
Os ingleses, associando-se com franceses e sob o manto de aprovação dos norte-americanos, praticam terrorismo de estado através de uma entidade internacional criada para proteger o mundo ocidental da Rússia. Com qual objetivo? Desmontar o aparato alemão de controle financeiro da UE, da qual a Inglaterra nunca quis fazer parte por aversão pura aos alemães, e neutralizar o domínio alemão sobre o Euro. Tarefa difícil, mas os ingleses nunca cessam de sabotar a união europeia.
Piragibe, você é gênio. Não havia pensado nisso. E agora já atacam a Alemanha por estar comprando papéis dos países europeus em dificuldade. Além disso, querem crucificar (como se pudessem) a Alemanha por não ter apoiado essa guerra criminosa (que gerou a Vitória dos Tolos), assim como a Míriam e o Merval querem crucificar o Brasil pelo mesmo motivo.
Agora inicia-se o butim.Quem vai levar mais, esta eh a pergunta.O Sarkozy, que orquestrou o levante, o sonso do Cameron, no papel historico dos ingleses em seguir oportunistas(vide Bush e o Iraque) ou o Barak Osama Obama, que parece ter herdado o cacoete de Bush.(foi do Brasil que ele ordenou o primeiro ataque a Libia)O tolos se esqueceram de combinar com aquela orda que esta destruindo o pais ,os califas e os tuaregues.Sao mesmo uns tolos.Deviam ler um pouco sobre a queda da Bastilha.Como sempre o Santayana nos dah uma aula de historia em suas analises.(desculpem, os acentos sumiram do meu comp.)
Leiam com urgência os artigos de Pepe Escobar e Robert Fisk. E saibam tudo que está em jogo na derrubada doo Kadafi.
O Azenha, como sempre lá no viomundo.com.br, disponibiliza os dois artigos. É análide de quem conhece do vespeiro.
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E as acusações contra as máfias que atuam na Sabesp? Vamos cobrar a limpeza ao ”Sr Alkimin”. E o MP-Sp que papelão, hein! Sujeira das grandes. Tem Camargo Correa no páreo.
Agora é hora de nos aliarmos aos Chineses e promovermos a recuperação da nova Libia.
nem gastem teclados pra falar bem do gadaffi, e poupem o sentimento anti-americano, “alea Jacta est” amigos, Ditador com final feliz só no mesmo no Brasil
Abriram a “Caixa de Pandora”!!!
Entre os tolos José Botafogo e os colonistas da Agência Brasileira de Notícias que se complementam em:
http://agenciabrasil.ebc.com.br/noticia/2011-08-23/brasil-precisa-se-posicionar-rapidamente-sobre-situacao-na-libia-diz-ex-embaixador
José Ivan Mayer de Aquino
Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida
Quem é a Urubóloga em aconselhar o país a se confrontar com a Líbia, nós temos que continuar nos aproximando de todas as nações livres. Vejam o exemplo do Lula, sua aproximação com a China, criticada por muitos, está resultando numa alavancagem gigantesca ao Brasil, eles produzem e precisam de nossas matérias primas, eles crescem e nós entramos no seu vácuo.
A ganância dos líderes europeus e o medo de ficar sem o líquido precioso (petróleo), acabará aumentando seu preço. Após K(G)adafi os novos donos do ouro negro acabarão aumentando seu valor. E como sempre quem vai sair perdendo serão os pobres do norte da Africa. E a Urubóloga não precisa de férias, ela precisa de aposentadoria, já é perceptível seu estado avançado de demência senil.
Brilhante como sempre, os artigos do Santayana.
Vejam esse telegrama do Kadafi para Obama.
http://wikileaks.org/cable/2008/11/08TRIPOLI874.html
Tolos, quem? Nós, mortais, ou os paises da OTAN?
Uma perfeita aula de História. Se o Santayna quisesse, poderia ter recorrido ao Machado: “Aos vencedores,as batatas”.
Momento histórico: Depois de uma intensa campanha belicista pró-OTAN no blog da Míriam PiGão, onde ela insistiu em provar que o Brasil estava errado em não ter ajudado nos bombardeios (novidade!) ela mesma posta notícia do Valor que a desdiz: Os negócios do Brasil na Líbia serão mantidos:
http://oglobo.globo.com/economia/miriam/posts/2011/08/24/valor-diz-que-negocios-brasileiros-na-libia-estao-mantidos-400774.asp
Agora ela mesma noticia suas bolas-foras, suas previsões errôneas kkkkk!
Finalmente!! Uma análise isenta! Os fundamentalistas tomarão conta de todo o OM, ja, já!