O Conversa Afiada reproduz texto de Mauro Santayana no JB:
EUA: os mitos e a História
por Mauro Santayana
Toda reconstrução histórica, por mais isento seja o pesquisador, corre o risco de se transformar em mitologia. Os heróis crescem em cada nova versão de seus feitos, geração após geração. Homero, em sua cegueira, viu os heróis míticos – já agigantados nas rapsódias de poetas anônimos e mais antigos – sob o esplendor de suas luzes interiores. Os rochedos e as correntes marinhas do estreito de Messina se transformam em monstros e sereias. Os prováveis conquistadores da pequena cidade costeira de Tróia e seus defensores se elevam à natureza de titãs.
As cores, na alma dos cegos, são muito mais intensas, e, da mesma forma, maiores os gigantes, mais rijos os heróis; a morte, quanto mais terrível, mais gloriosa. Mas os cegos não são apenas aqueles desprovidos da visão convencional. Confirmando o ditado popular, piores são os cegos que não querem ver.
Quando surgem os destruidores de mitos, nascem os construtores do homem. O mais belo dos mitos, o do Cristianismo, é, na sua essência, o não mito: é na debilidade de um homem açoitado, vaiado por seus conterrâneos, desdenhado e crucificado, que o verdadeiro cristianismo levanta seus alicerces.
Todos os povos temem confrontar-se com seus próprios mitos. E quanto mais grandiosos eles sejam, mais dramática é a tarefa de reduzi-los aos módulos humanos. Os Estados Unidos são o mais mitológico dos paises modernos, e é no embalo dessa mitologia que eles foram construindo o seu destino. Há um livro de leitura obrigatória sobre a reconstrução de seu passado, traduzido ao português, Mitos sobre a fundação dos Estados Unidos, do historiador americano Ray Raphael, publicado pela Civilização Brasileira em 2004. O autor desmonta os mais fascinantes mitos da Revolução e da criação da República, da famosa marcha de Paul Revere à Declaração da Independência e aos feitos bélicos de George Washington. Paul Revere foi um dos três mensageiros que alertaram contra a movimentação dos ingleses – e não o único “cavaleiro da meia-noite” do mito; Jefferson foi apenas um dos cinco redatores da Declaração da Independência, e não seu autor solitário; as tropas rebeldes cometeram tantas atrocidades contra os civis quanto as realistas. Enfim, a mitologia dos pais fundadores surgiu de autores que reescreveram a História, décadas depois, durante o período de afirmação nacionalista e da presunção do “Destino Manifesto”, na segunda metade do século 19.
É certo que todas as nações necessitam de heróis, mas esses heróis são bem maiores quando se trata de homens comuns, com seus temores, suas fraquezas, suas incertezas. Em 1908, outro livro, de título semelhante, e citado por Ray Raphael – Mitos e fatos da Revolução Americana – mostra a raiz da distorção histórica:
“Que utilidade política pode haver em descobrir, ainda que seja verdade, que Washington não era assim tão sábio, nem Warren tão corajoso, nem Putnam tão aventuroso, nem Bunker Hill disputado heroicamente, como se tem acreditado? Chega de tanto ceticismo, dizemos; e da crítica bisbilhoteira com a qual às vezes se tenta sustenta-lo. Essas crenças, de qualquer modo, tornaram-se reais para nós quando penetraram na própria alma da nossa história e formaram o estilo de nosso pensamento nacional. Tira-las, agora, seria uma desorganização danosa da mente nacional”.
A História oficial norte-americana tem suas razões para raras vezes citar o mais inquietante de seus personagens, o jornalista inglês Tom Payne. Payne era o tipo perfeito do anti-herói: cachaceiro, utópico defensor de uma sociedade igualitária, pregador da educação para todas as crianças pobres, sonhador de uma “justiça agrária”, e autor do mais importante paper em favor da Independência, The Common Sense. Ele era, em tudo por tudo – até mesmo pelo seu autodidatismo – o contrário dos aristocratas virginianos e bostonianos que a mitologia americana cultua como os pais fundadores.
De mito em mito, os norte-americanos construíram sua civilização e, diga-se a verdade, amedrontaram grande parte do mundo. Agora, no entanto, começam a descobrir a sua própria verdade, ao mesmo tempo que vêem crescer o apelo à mitologia. A direita norte-americana recorre ao famoso episódio da revolta contra a tributação do chá – outro mito desfeito por Ray Raphael – e tenta amarrar-se à ficção histórica, com a presunção de que possa reeditar o “Destino Manifesto” de John L. Sullivan, de 1845, texto visto como justificação ideológica para a guerra de conquista contra o México, que se iniciaria no ano seguinte.
Há quem preveja nova guerra civil nos Estados Unidos, e essa profecia, que pode parecer insana, encontra alguma base na divisão nítida entre os republicanos envenenados pela mitologia do Tea Party e a população pobre que irá pagar pela avidez doentia de seus banqueiros e chefes militares.
Os tempos são novos. Não estamos mais no governo de Roosevelt e seu “new deal”. Diante da crise de 1929, que se estendeu até sua posse, o presidente valeu-se dos recursos fiscais acumulados, a fim de socorrer os trabalhadores, criando empregos para tarefas até mesmo desnecessárias, mas não dando dinheiro aos banqueiros nem aos outros especuladores no mercado de capitais, que haviam provocado o desastre. Pouco a pouco, a população se torna a cada dia mais bem informada, e não é improvável que os descontentes venham a organizar-se.
Os donos do poder nos Estados Unidos continuam insistindo nas versões “patrióticas” construídas pelos interesses das famílias no poder, mas começa a crescer a consciência da realidade. As derrotas sucessivas mostram que a invencibilidade militar ianque é outro mito, e é melhor somar-se à Humanidade do que pretender dominá-la.



Muito lúcida a mensagem do mestre Santayana!
José Luiz Rossi, a Casa Branca não lê o Santayana, mas o PRAVDA lê. Olha aí na página em inglês do blog do Santayana:
http://mauro-santayana-english.blogspot.com/
Viva os EUA!!! Melhor nação do mundo!!!
Mito?? Não!!! F-A-T-O!!!!!!
Melhor para quem, cara pálida? Are you an American citizen?
A atual radicalização da direita estadunidense é um sintoma claro e manifesto do que sinaliza o mestre Santayana. Nós, que vemos Obama sucumbir a essa direita, sentimo-nos impelidos a apoiá-lo, sem ter muito como, no plano interno dos EE.UU. No plano da política externa, não há como não sermos contrários aos seus atos. Vide os últimos episódios no Magreb, Oriente Médio e Paquistão.
Lá vai trôpego pela pradaria o Sam, observado pelo Confúcio.
Quando deixou o poder em 1960 Eisenhower avisou que o maior desafio que os EUA enfrentariam eram os interesses do complexo industrial-militar. Sabe-se de longa data que os republicanos são os porta-vozes desses interesses, bem como o fato de que ele é alimentado pelo discurso patriótico-beligerante que tornou-se cada vez mais radicalizado e fanatizado.
Nada disso é novidade. Novidade é que esses interesses capturaram o governo norte-americano, que não tem coragem de cortar o orçamento desse setor para a fazer poupança necessária para realavancar a economia.
Embora tenha todas as condições para se recuperar disse bem o Santayana: os mesquinhos interesses de banqueiros, industriais e militares liquidam qualquer tentativa de recuperação.
Do meu ponto de vista os EUA não tem mais volta e nos próximos anos assistiremos seu lento declínio enquanto se radicaliza o discurso político/militar que procurará um inimigo a todo custo, externo de preferência, e quem sabe, também interno.
O bom de envelhecer é que um dia alguém escreve sobre as implicâncias que cultivamos por vários anos e com os quais atormentamos nossas parentes próximos.
Nunca enguli esses “estoriadores” fisiológicos. eles são como Juízes criminosos, ou seja decepcionam todas as expectativas que a humanidade lhes direciona.
Vida canudos, vide guerra (Massacre) do Paraguai etc etc.
PHA parabéns pela matéria
Fernando L. Silva
Os EUA encontrou um verdadeiro dilema para sua realidade, ao mesmo tempo que são ricos, agora “todos” se encontra igualmente pobres. Pensa que pode extorqui o mundo e ficar em pune. God Bless America nos seus dias futuros de carestias, necessidades e dificuldades.
Adoro história. Li muito sobre o Egito, Grécia, e Roma. O que são nos dias de hoje? A diferença é que os antigos grandes impérios, governaram o mundo por muitos séculos, e ao final ruiram sem deixar grandes inimigos. Mas hoje, nem se passou um século, e os EEUU, no fundo, só tem um país que lhe é fiel de verdade, todos os outros, tem lá suas pendengas com o tio Sam.
Como sempre o nosso grande Santayanna antevê o futuro histórico com sabedoria. O povo já não aguenta mais os expedientes mais sórdidos usados por Wall Street e seu bando para tomar dinheiro público de governos fracos. Em quase todos os continentes as nações, finalmente, estão se levantando contra a ditadura do mercado. Do Chile à Síria, da Espanha ao Iraque, há manifestações espontâneas dos povos esmagados pela “avidez doentia de banqueiros e militares”. E que se expandam cada vez mais este justo grito de BASTA!
Acho que há sim o risco de divisão grave nos EUA, a direita republicana que gosta de armas não hesitará em usá-las para garantir seu ideário. Entretanto os estados mais desenvolvidos não aceitarão isso e reagirão.
O destino do mundo está intimamente ligado a este embate na maior potência, a dúvida é se demora ou se vai se dar mais cedo do que pensamos.
Um gigante como os EUA não cai sem fazer estragos. O mundo ainda assistirá a demonstrações de força e opressão. As elites mundiais , dos EUA e Europa , não vão empobrecer sem tentar antes disso, fazer com que , mais uma vez , os povos pobres paguem a conta.
Se houver mais uma guerra mundial, dessa vez será de ricos contra pobres , o motivo eles inventam .
Falou e disse!
o PIG daqui deve está chorando lágrimas de sangue porque o seu país queridinho(EUA) está se desmanchando, inclusive suas falácias megalomaníacas que sustentava seus preceitos fundados em meias verdades e totais mentiras, como essa dos pais fundadores citada por Santayanna.
chora pig podre!
Obama faz o caminho inverso ao de Roosevelt,que não deu dinheiro aos banqueiros.Os projetos sociais são os que sofreram as sanções do tea party.Obama capitulou.Quanto a síndrome de John Waine,eles acreditam demais na propaganda da supremacia,de conteúdo mais ficcionista que real. Tomaram uma verdadeira surra no Vietnã,mas isso não é divulgado.Apanham em todas as guerras que entram e nunca apresentam nada,senão alternativa bélica.Se tal povo não questiona episódios como os das duas tôrres,que foram convenientemente derrubadas,durante a crise do des-governo Bush,não vejo alternativas,senão a politização.
PHA, cadê o comentário do Sr. Roberto? Assim, a minha réplica não tem o menor valor.
É sempre bom mostrar a opinião daqueles que defendem a direita, para entender como funciona sua lógica brilhante e o seu poder de persuasão.
E é claro, este é um espaço democrático. Críticas (civilizadas) devem ser sempre bem-vindas.
Acho que que do contexto de um seculo, o nazismo, o facismo não é o oposto da direita americana. Essa direita presta um serviço com o facismo, só que muito cruel. Se pode colocar no mesmo saco os banqueiros, os judeus banqueiros e da midia, a poderosa industria de guerra americana, etc. Tudo faz parte do mesmo sistema. Assim como o papa que querem fazer santo foi visita, em 1981, o Pinoche, e nada falou de direitos humanos, os judeus de Israel que queriam vende a tecnologia atomica ao regime racista da Africa do Sul. Quem é melhor que quem? Sabemos o que é pior, por isso estamos hoje como estamos.
Sempre tem que aparecer um reaça…
Os últimos anos desmontaram de vez algumas destas tradições , Bushs e Reagan são mas ridículos que qualquer ditador que a AS tenha produzido.
O atentado as torres gemêas , fato que do viés politíco será esquecido ou exibido com padrões para não despertar holofotes e investigações, na hipótese de participação de norte americanos seria um ato de guerra civil, ainda que tivesse objetivos externos. É melhor somar-se a humanidade que tentar domina-lá
Santayana é peso pesado da República do Brasil, esta transição é o grande desafio de Obama , com os republicanos na posição de tudo ou nada.
Esquerdices do Santayana era em outros tempos , só esta frase é algo almejado por todo jornalista, e esta como este texto são apenas gotas de orvalho na obra deste Mestre do Jornalismo , sobre ética ele tambem entende um pouco.
Esse artigo do Santayana é uma exposição da essência da sociedade america a partir na perspectiva de sua elite.
Quando a direita assume o poder, sempre comprova magistralmente seu próprio axioma de que o Estado é imcompetente e deve ser banido. Em qualquer país do mundo.
PHA
Vale colocar o “link” do nascimento da manipulação da massa. A criação dos mitos, dos heróis e dos “pais da Pátria” fazem parte do mesmo tema. A destruição de reputações também.
A típica crítica bombril que não critica coisa alguma.
brilhante matéria!!!
Sinto muito, Mr. Trol…, quero dizer, Sr. Roberto, mas não vamos mais ser massa de manobra da direita. As pessoas estão começando a abrir os olhos. Como o próprio Santayana disse: “o pior cego é aquele que não quer enxergar.”
É Luiz Rossi, os ianques liam paulo francis como forma de saber se este estava cumprindo direitinho com a sua parte.
Entendemos esse “bem formado” como bem formado pelas opiniões e análises do PIG.
Se tivesse buscado outras fontes de conhecimento histórico entenderia o que ele quiz dizer, ainda que não tenhas 15 anos.
Tenho muita pena do trabalhador norte americano, irão pagar a queda dos EUA, pagarão a vida que os conservadores ostentaram.
Sobre guerra civil, não tenho tanta certeza…já sobre uma terceira guerra mundial, quase não tenho dúvidas!
Não é pra ter
O forte destas elites americana e brasileira quando a corda aperta, é chamar para o confronto de guerra. As indústrias de produtos bélicos pertencem a eles e participam de seu jogo do poder como grande fato gerador de montantes financeiros. Hoje nos assombramos ao ver como os republicanos conseguiram destroçar a economia americana com as guerras do Afeganistão/Iraque em pouco tempo. Essa turma infelizmente ainda não aprendeu a fazer o dever de casa.
O decílio dos EUA começou com o Reagan, também a dinastia Bush, o Clinton e o Obama herdaram.
Olá,
Leia e opine OK.
Abs,
Uma pena que a Casa Branca não leia o M.Santayana.(O P. Francis dizia que era lido por lá.)