Redação Conversa Afiada

RedaçãoConversa Afiada

Santayana e a miséria americana

    Publicado em 16/11/2011
  • Salve e compartilhe
  • | Imprimir Imprima |
  • Vote
    Avaliação NegativaAvaliação Positiva (+31)

Cena do Zuccotti Park, pertinho de Wall Street

O Conversa Afiada reproduz texto de Mauro Santayana, extraído do JB online:

O capitalismo e a miséria americana


por Mauro Santayana


O capitalismo, dizem alguns de seus defensores,  foi uma grande invenção humana. De acordo com essa teoria, o sistema nasceu da ambição dos homens e do esforço em busca da riqueza, do poder pessoal e do reconhecimento público, para que os indivíduos  se destacassem na comunidade, e pudessem  viver mais e melhor à custa dos outros. Todos esses objetivos exigiam o empenho do tempo, da força e da mente.  Foi um caminho para o que se chama civilização, embora houvesse outros, mais generosos, e em busca da justiça. Como todos os processos da vida, o capitalismo tem seus limites. Quando os ultrapassa no saqueio e na espoliação, e isso tem ocorrido várias vezes na História, surgem grandes crises que quase sempre levam aos confrontos sangrentos, internos e externos.


A revista Foreign Affairs, que reflete as preocupações da intelligentsia norte-americana (tanto à esquerda, quanto à direita) publica, em seu último número,  excelente ensaio de George Packer – The broken contract; Inequality and American Decline. Packer é um homem do establishment. Seus pais são professores da Universidade de Stanford. Seu avô materno, George Huddleston, foi representante democrata do Alabama no Congresso durante vinte anos.


O jornalista mostra que a desigualdade social nos Estados Unidos agravou-se brutalmente nos últimos 33 anos – a partir de 1978.  Naquele ano,  com os altos índices de inflação, o aumento do preço da gasolina, maior desemprego, e o pessimismo generalizado, houve crucial mudança na vida americana. Os grandes interesses atuaram, a fim de debitar a crise ao estado de bem-estar social, e às regulamentações da vida econômica que vinham do New Deal. A opinião pública foi intoxicada por essa idéia e se abandonou a confiança no compromisso social estabelecido nos anos 30 e 40. De acordo com Packer, esse compromisso foi o de uma democracia da classe média. Tratava-se de um contrato social não escrito entre o trabalho, os negócios e o governo, que assegurava a distribuição mais ampla dos benefícios da economia e da prosperidade de após-guerra – como em nenhum outro tempo da história do país.


Um dado significativo:  nos anos 70, os executivos mais bem pagos dos Estados Unidos recebiam 40 vezes o salário dos trabalhadores menos remunerados de suas empresas. Em 2007, passaram a receber 400 vezes mais. Naqueles anos 70, registra Packer, as elites norte-americanas se sentiam ainda responsáveis pelo destino do país e, com as exceções naturais, zelavam por suas instituições e interesses. Havia, pondera o autor, muita injustiça, sobretudo contra os negros do Sul. Como todas as épocas, a do após-guerra até 1970,  tinha seus custos, mas, vistos da situação de 2011, eles lhe pareceram  suportáveis.


Nos anos 70 houve a  estagflação, que combinou a estagnação econômica com a inflação e os juros altos. Os salários foram erodidos pela inflação, o desemprego cresceu, e caiu a confiança dos norte-americanos no governo, também em razão do escândalo de Watergate e do desastre que foi a aventura do Vietnã. O capitalismo parecia em perigo e isso alarmou os ricos, que trataram de reagir imediatamente, e trabalharam – sobretudo a partir de 1978 – para garantir sua posição, tornando-a ainda mais sólida.  Trataram de fortalecer sua influência mediante a intensificação do lobbyng, que sempre existiu, mas, salvo alguns casos, se limitava ao uísque e aos charutos. A partir de então, o suborno passou a ser prática corrente. Em 1971 havia 141 empresas representadas por lobistas em Washington; em 1982, eram 2445.


A partir de Reagan a longa e maciça transferência da renda do país para os americanos mais ricos, passou a ser mais grave. Ela foi constante, tanto nos melhores períodos da economia, como nos piores, sob presidentes democratas ou republicanos, com maiorias republicanas ou democratas no Congresso. Representantes e senadores – com as exceções de sempre – passaram a receber normalmente os subornos de Wall Street. Packer cita a afirmação do republicano Robert Dole, em 1982: “pobres daqueles que não contribuem para as campanhas eleitorais”.


Packer vai fundo: a desigualdade é como um gás inodoro que atinge todos os recantos do país – mas parece impossível encontrar a sua origem e fechar a torneira. Entre 1974 e 2006, os rendimentos da classe média cresceram 21%, enquanto os dos pobres americanos cresceram só 11%. Um por cento dos mais ricos tiveram um crescimento de 256%, mais de dez vezes os da classe média, e quase triplicaram a sua participação na renda total do país, para 23%, o nível mais alto, desde 1928 – na véspera da Grande Depressão.


Esse crescimento, registre-se, vinha de antes. De Kennedy ao segundo Bush, mais lento antes de Reagan, e mais acelerado em seguida, os americanos ricos se tornaram cada vez mais ricos.


A desigualdade, conclui Packer, favorece a divisão de classes, e aprisiona as pessoas nas circunstâncias de seu nascimento, o que constitui um desmentido histórico à idéia do american dream.


E conclui: “A desigualdade nos divide nas escolas, entre os vizinhos, no trabalho, nos aviões, nos hospitais, naquilo que comemos, em nossas condições físicas, no que pensamos, no futuro de nossas crianças, até mesmo em nossa morte”. Enfim, a desigualdade exacerbada pela ambição sem limites do capitalismo não é apenas uma violência contra a ética, mas também contra a lógica. É  loucura.


Ao mundo inteiro – o comentário é nosso- foi imposto, na falta de estadistas dispostos a reagir, o mesmo modelo da desigualdade do reaganismo e do thatcherismo. A crise econômica mais recente, provocada pela ganância de Wall Street, não serviu de lição aos governantes vassalos do dinheiro, que  continuaram entregues aos tecnocratas assalariados do sistema financeiro internacional. Ainda ontem, Mário Monti, homem do Goldman Sachs, colocado no poder pelos credores da Itália, exigia do Parlamento a segurança de que permanecerá na chefia do governo até 2013, o que significa violar a Constituição do país, que dá aos representantes do povo o poder de negar confiança ao governo e, conforme a situação, convocar eleições.


Tudo isso nos mostra que estamos indo, no Brasil,  pelo caminho correto, ao distribuir com mais equidade a renda nacional, ampliar o mercado interno, e assim, combater a desigualdade e submeter a tecnocracia à razão política. É necessário, entre outras medidas, manter cerrada vigilância  sobre os bancos privados, principalmente os estrangeiros, que estão cobrindo as falcatruas de suas instituições centrais com os elevados lucros obtidos em nosso país e em outros países da América Latina.



Artigos Relacionados

  • nilson vieira disse:

    Aldeia Global,tem dono,e são poucos,qualquer governo que tenta mudar o rumo,é chamado de “comunista”. Ou é derrubado,ou fica com fama de “conivente c/desvios”,ou pior ainda totalitarismo bolivarian,.e o pior de tudo, em nosso país o pig comanda os tambores da comunicação.

  • Arnbert disse:

    Quando eu estava estudando, “ano 1976″. Os EUA eram constituido de: 90% classe média. isso é quem rola a economia. 9% pobre e 1% ricos.
    Hoje o Brasil está aumentando a classe média e está chegando no nível de equilibrio.
    Nós nunca vamos gastar trilhões em invasão de paises como está fazendo o “EUA o verdadeiro SENHOR DA GUERRA.
    Obs.: Rico não gasta, e pobre não tem como comprar.

  • susy disse:

    Dizer que um país como o Brasil está no rumo certo, investindo nem 7% do PIB em educação?! Não está não.
    Um Governo Federal que já se mostrou capaz de tantas realizações e não investir pelo menos 10% do PIB em educação, será que pode esperar que a economia esteja vigorosa a longo prazo?

  • Fred Azevedo disse:

    Com certeza, estamos no caminho certo.
    Apenas necessitamos de algumas pequenas correções de rota, como por exemplo: acabar com a farra dos banqueiros… adestrá-los a realidade, antes que manipulem toda a sociedade.
    Ah, que falta faz uma Ley de Médios!!!
    Mas, de maneira geral, estamos indo muito bem.

  • NYLSON FILHO disse:

    Muito a calhar, temos hoje no NYT uma reportagem sobre o encolhimento (tanto numérico como em termos de renda) da classe média americana. Não faltava nada para provar os acertos das políticas dos governos trabalhistas. Agora são os EUA mirando no exemplo do Brasil que está dando uma grande lição ao mundo.

    http://www.nytimes.com/2011/11/16/us/middle-class-areas-shrink-as-income-gap-grows-report-finds.html?nl=todaysheadlines&emc=tha23

  • J.C.CAMARGO disse:

    MAURO: tudo bem! E a miséria socialista? Ninguem fala nada dela? Estranho!

    • NYLSON FILHO disse:

      Que miséria socialista você está falando? A vigente na Noruega, por exemplo?

    • simas disse:

      A miséria socialista não se constitui o grde problema, atual. Além do mais, está se provando, com o caminhar dos tempos, q esse decantado perigo socialista não passa de um espantalho, nos campos de trigo… O Estado tem de estar presente, sim, como regulador e indutor das Políticas de Estado. Ademais, a desigualdade social faz dos cidadãos, seres diferentes; o q é imoral. Cara, as pessoas nascem iguais; quem as fazem diferentes são as políticas aplicadas á sociedade. Obrigado

    • Avel de Alencar disse:

      O que tem a ver sua pergunta com o contexto da matéria?

  • Roberto disse:

    PHA,
    Aproveito o artigo e lhe deixo uma questão sobre os nossos ilústres magistrados: Qual o valor do Vale-refeição dos membros do STF? E do STJ? Voce sabe? Alguém sabe?
    Vale-refeição não deveria ter o mesmo valor para todos os travalhadores? Ou será que uns merecem se alimentar “melhor” que os outros?
    Perguntinha chata esta, não?
    Um abraço!

    Roberto

  • liz maria disse:

    O capitalismo começou mesmo quando Móises caminhava com o povo judeu na saída do Egito e certo dia ele se afastou para fazer suas santas orações em alguma montanha nas imediações e quando retornou os judeus fariseus estavam realizando um culto ao “Bezerro de Ouro” pedindo ao seu deus para ganharem muita grana, e ai que Moisés se revoltou ficou muito p. da vida e se afastou daquele grupo idólatra e seguiu em sua caminhada com uns quatro gatos pingados que só queriam obter da divina graça um pouco de paz e um lugar digno p/ fixarem residência e poder viver em paz e harmonia, mas como sempre o dinheiro fala mais alto e ai começa a desintegração e as desgraças…um querendo comer o outro , ou melhor passar a perna no outro, a ambição, a ganância, o desejo de obter poderes e de enganar tomou conta de tudo, como agora como incentiva o véio maroto silvio santos “tudo por dinheiro”(tudo pelo apego, amor ao dinheiro) tudo é válido, tudo pode?…e assim caminha a humanidade?ou desumanidade? Espero PHA, mesmo com meus erros pois não tenho nenhum “deploma” possa meu coment´pario dessa vez ser publicado, pois não coloquei nada ofensivo ou desabonador como sempre…

    • Avel de Alencar disse:

      Liz Maria. o interessante é que as religiões, sustentáculo dos poderosos, adoram dar o exemplo do “boi de ouro” da bíblia. E o interessante é que nem os líderes religiosos e seus fiéis parecem perceber que o simbolo dos magnatas de wall street é o “boi de ouro”.

  • Morus disse:

    Santayana, como sempre, claro, direto e objetivo, sem perder a sensibilidade.

  • Leônidas Costa Andrade disse:

    Discordar do Santayana pra mim soa como sacrilégio, tamanha a minha admiração, porém não vejo que o Brasil está indo no “caminho correto”, estamos trilhando o mesmo caminho, sim, nos últimos anos conseguimos algum avanço social, o “bolsa família” tirou milhões de família da miséria absoluta, mas trouxe muito mais benefícios para o capitalismo que para os beneficiados propriamente ditos, R$ 70,00 por pessoa por mês (pouco mais de R$ 2,30 por dia) não me parece garantir a sobrevivência com dignidade, em contrapartida os bancos têm lucros astronômicos e a concentração da renda na grandes empresa é absurda, basta citar o Eike Batista que pela primeira vez na história coloca um brasileiro entre os mais ricos do mundo, um pais para ser justo não deveria ter ninguém entre os mais ricos e ninguém entre os mais pobres do mundo.

    • Nilson Carvalho disse:

      Como acentou o comentarista, milhões de familias foram tiradas da miseria absoluta. E não foi feito mais porque não deixaram. É só acompanhar os comentarios revoltados que, ainda hoje,são atirados contra o ex-presidente, pelos que se fizeram defensores do neo-liberalismo (de triste memória). É precioso citar seus nomes? Todos são bastantes conhecidos: estão no rádio,na televisão, nos jornais, na politica, na internet…

    • Eugênio L.da Costa disse:

      o comentário do Leônidas, caro internauta, o que você diz, essa transferência de renda, vai prinpalmente para os banqueiros. O que o povo em qualquer lugar do planeja está percebendo é que os banqueiros, os financistas, estão cada vez mais ricos haja crise ou não. O Brasil são seria diferente, perceba que o FHC para salvar os bancos, tranferiu 270 bilhões para isso, em 2007, hoje seria (vezes 3) 510 bilhões, isso daria para sustentar o bolsa familia durante (divida por 11 bilhões) quase 50 anos. Os bancos querem sempre mais. Eles vão falir a economia global, ai o governo terá de dividir os dinheiro deles.

    • Paultx disse:

      Leônidas, o que o Santayana disse foi: “Tudo isso nos mostra que estamos indo, no Brasil, pelo caminho correto, ao distribuir com mais equidade a renda nacional, ampliar o mercado interno, e assim, combater a desigualdade e submeter a tecnocracia à razão política.” Ele não disse que tá tudo certo, mas que “estamos indo pelo caminho correto” e que é preciso “manter cerrada vigilância” sobre dadas situações, entre as quais podemos incluir essa berrante disparidade do Eike Batista citada por você. Entendo que ele quis dizer que estamos num rumo certo, tomando decisões e medidas certas, mas ainda estamos, digamos, apenas no “começo do caminho”, ainda falta muita coisa.

  • kalifa disse:

    Esse é o resultado da política neoliberal, se o cerra ganha aqui era esse o cenário brasileiro, crescido pela fragilidade brasileira!

  • francisco pereira neto disse:

    Pelo artigo, parece que o New Deal já foi mesmo. Quem viveu pós 45 até os anos 70 nos EUA, jamais verão período tão prósperos como aqueles. Daquí por diante devem-se conformar com as agruras iguais ou piores dos povos que eles saquearam. O destino é justo. E como disse o Santayna, o Brasil está no caminho certo ao distribuir riquezas. Eu diria não só o Brasil, mas de uma forma geral a América Latina. O mundo da voltas.

  • Enildo disse:

    Ao ampliar a Teoria dos Jogos, levando-a para as Ciências Sociais e Políticas, o brilhante Matemático John Nash, bem interpretado por Russel Crowe em “Uma mente brilhante”, já havia traduzido em números essa máquina de moer seres humanos. Nesse Capitalismo Video-financeiro, a tendência dominante é o mais forte aniquilar o mais fraco.

  • CAFÉ DO BODE disse:

    Esse jogo do clube bilderberg é como bem analisa o craque Mauro Santayana. Querem a desmoralização total dos políticos para ter um governo único e global. Que horror!!!

Deixe seu comentário...

"O Conversa Afiada não publica comentários ofensivos, que utilizem expressões de baixo calão ou preconceituosas, nem textos escritos exclusivamente em letras maiúsculas ou que excedam 15 linhas."

  •