Quarta-feira, 01 de Abril de 2015

Publicado em 26/12/2014

Educação: a revolução
que está em curso

Cid Gomes foi o governador da Educação.

O Conversa Afiada republica da Carta Capital importante entrevista de Henrique Paim, que deixa ao sucessor, Cid Gomes, um trabalho invejável:


“Com mão de obra qualificada vamos aumentar a produtividade”



Jovem adia busca de trabalho e compensa estagnação do PIB. “Em 10 anos, teremos reflexos econômicos muito positivos”, diz o ministro da Educação, que dará lugar a Cid Gomes em 2015


por André Barrocal


Dados recentes mostram o Brasil com um baixo índice de diplomados entre 25 e 34 anos. Embora tenha quase dobrado para 15% desde 2004, é pouco perto, por exemplo, dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Na geração seguinte, o quadro está relativamente melhor. Os universitários de 18 a 24 anos somam 16,5% da população total da faixa etária, segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), um recorde nacional.


Os novos graduandos parecem mais propensos a dedicar-se só aos estudos, até porque o aumento da renda e o barateamento dos cursos nos últimos anos deram uma folga ao orçamento doméstico. A proporção atual de trabalhadores com 18 a 24 anos é das menores do século, de 60%, diz a Pnad.


A expansão do ensino superior e a redução do trabalho jovem estão entre as causas de um aparente paradoxo: a queda da taxa de desemprego em 2014, ano de estagnação econômica.


Em entrevista a CartaCapital, o ministro da Educação, Henrique Paim, que em 2015 dará lugar a Cid Gomes (Pros-CE), analisa este cenário e aponta o que considera sua principal consequência: “Temos uma outra perspectiva de país, de um país mais desenvolvido e uma mão de obra mais qualificada”.



CartaCapital: Segundo a Pnad, há mais jovens no ensino superior e uma proporção menor de jovens no mercado de trabalho. Por quê?

Henrique Paim: Tivemos um crescimento grande de matrículas no ensino superior nos últimos anos, praticamente dobramos de 2003 a 2013. Isso reflete políticas federais como o Prouni, o Fies e a expansão das universidades públicas, especialmente das federais. Aumentaram as oportunidades educacionais, o que certamente se reflete no interesse dos jovens de estudar mais. De 2003 a 2014, a população de 18 a 24 anos teve uma queda de 5%, mas na população economicamente ativa [PEA] a proporção do segmento caiu 23%. Essa queda acentuada na PEA começou em 2009, 2010. De 2010 a 2014, o número de jovens caiu 3%, enquanto na PEA caiu 16%. Por que chama a atenção a queda do desemprego, mesmo sem crescimento do PIB? Porque caiu a PEA na faixa etária de 18 a 24 anos.



CC: Que consequências essa situação terá para o País nos próximos anos?

Paim: Teremos uma ampliação da qualificação da mão de obra, o País necessita disso. Um conjunto significativo dessas novas vagas, tanto privadas quanto públicas, é voltada para cursos tecnológicos. Em 2011 tivemos uma mudança importante na trajetória do número de ingressantes no ensino superior. Os cursos da área tecnológica ultrapassaram cursos como Direito, uma novidade. O reflexo para a economia é muito positivo. Com uma mão de obra mais qualificada, vamos melhorar nossa produtividade no trabalho. No médio e longo prazos, teremos um incremento no valor agregado dos nossos produtos, o que vai permitir um maior crescimento de renda e de PIB.



CC: Quando essa massa de jovens universitários terá impacto na produtividade da economia?

Paim: Os resultados em educação são de médio e longo prazos. Para formar um jovem no ensino superior, levamos em torno de quatro anos e meio na graduação. Acredito que a partir dos nossos investimentos, da melhoria das condições de acesso ao ensino superior, teremos daqui 10 anos, 15 anos, resultados importantes. E vale lembrar que taxa de retorno na educação é muito elevada, de 9,5% em termos reais.



CC: Que taxa é essa?

Paim: É quanto o investimento em educação gera de retorno para o País. Uma taxa de retorno nominal de 12% em qualquer projeto já é elevada. De 9,5% em termos reais, é bem alta. Mas o que eu acho que deveríamos ressaltar também é o seguinte: houve uma mudança de imaginário dos jovens e das famílias brasileiras. Hoje, mais gente pode sonhar em ter um curso superior. Os brasileiros estão vendo que para avançar socialmente é preciso estudar mais, uma mudança de mentalidade que só ocorreu devido à ampliação das oportunidades proporcionada pelo governo. A partir do momento que o País muda a mentalidade, que as pessoas querem estudar mais, fazem um esforço maior, temos uma outra perspectiva de país, de um país mais desenvolvido, uma mão de obra mais qualificada. É um fenômeno importante que tem de ser registrado.



CC: Juntos, o Fies, o Prouni e a expansão das federais acrescentaram quantas vagas novas?

Paim: No caso das federais, nós triplicamos entre 2003 e 2013. Tínhamos 120 mil, hoje são 360 mil. Mas vaga não é um bom indicador. Quando eu trabalho com instituições privadas, nem todas as vagas aprovadas [no Prouni, no Fies] são utilizadas. O melhor é observar o número de matrículas. Nas matrículas totais, saímos de 3,5 milhões para 7,3 milhões, considerando instituições privadas e públicas. Nas federais também dobrou, de 500 mil para um milhão.



CC: Essa expansão do ensino superior exige mais investimento em qualidade. O que está sendo feito sobre isso?

Paim: Nas universidades federais, todo esse crescimento foi acompanhado de um processo muito forte de inclusão social. Elas passaram por uma mudança de fisionomia de seus estudantes, hoje temos mais estudantes oriundos de escolas públicas, negros, indígenas. Os críticos diziam que teríamos queda de qualidade. Não ocorreu isso, pelo contrário. As federais têm avançado nos indicadores de desempenho. Nas privadas, tanto no Prouni quanto no Fies, nós temos controle dos cursos, eles obrigatoriamente têm de ter um desempenho satisfatório. Além disso, nós criamos uma secretaria exclusiva para regulação do ensino superior. Temos critérios muito mais rígidos. Mas precisamos ampliar os instrumentos de controle. Por isso queremos criar uma entidade reguladora, o Instituto Nacional de Supervisão e Avaliação da Educação Superior.



CC: O senhor falou em mudança de perfil dos estudantes. Segundo a última Pnad, o número de universitários negros e pardos aproximou-se do de brancos. Em 2001, era de pouco mais de um terço.

Paim: No Fies, 92% dos estudantes estão numa faixa de dois salários mínimos de renda familiar per capita. No Prouni, a exigência é de 1,5 salário mínimo para a bolsa integral e de 3 salários mínimos para a bolsa parcial. São programas que realmente atingem a população de baixa renda. O Prouni tem cotas, 51% são negros. No Fies, os negros são quase 50%. Nas universidades federais, a última seleção tinha 37% das vagas para negros, chegaremos perto de 45% na próxima. Aquela velha ideia de que quem estuda em escola pública faz universidade privada está se modificando.



CC: Por que o instituto regulador ainda não foi aprovado pelo Congresso depois de dois anos?

Paim: Em geral, projetos de lei de criação de novas autarquias, estruturas governamentais, levam um certo tempo mesmo, passam por várias comissões, discussões.



CC: As universidades privadas têm, de alguma forma, trabalhado contra?

Paim: Elas sabem do rigor do MEC na supervisão e na regulação. Temos tomado medidas bastante duras, que vão desde a interrupção do processo seletivo e a redução do número de vagas até o descredenciamento de instituições. Então, independentemente da aprovação do instituto, o setor tem se adequado a essas regras porque sabe qual é o posicionamento do MEC. Considerando Prouni e Fies, hoje mais de 45% das matrículas em instituições privadas são bancadas a partir de políticas federais. Temos que ter muito rigor e compromisso com a qualidade.



CC: Um colega jornalista tem dois filhos na Europa pelo programa Ciência sem Fronteiras e diz que eles só viajam, não estudam. Que controle existe contra isso?

Paim: Aí tem de analisar a situação específica, que eu não sei qual é. Mas temos pouquíssimos registros deste tipo de situação e, quando ocorre, os estudantes são afastados imediatamente. Como funciona o programa? Nós selecionamos os alunos pelo Enem, eles pleiteiam uma vaga em países como Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha, Itália, aí vemos as regras das instituições, e geralmente são regras rígidas, estamos falando das melhores instituições do mundo. Em cada país, temos instituições intermediadoras acompanhando. Se houver problemas, estas são informadas e informam imediatamente ao Brasil. Até agora, nossa avaliação do programa é muito boa.



Comentários

  • Andre Felipe

    Necessitamos urgentemente do fim da famigerada “Progressão Continuada” no estado de SP.
    Esse tipo de ensino tirou o estimulo para o aluno estudar, tirou o respeito pelos pais, professores, diretores e colegas, além da auto estima.
    Muda-se urgentemente isso, ou como já a duas gerações, o PSDB paulista, continuará a gerar mão de obra barata e alienada politicamente.
    Tem de haver uma politica de ensino publico homogênea a nível nacional e direcionada para o desenvolvimento que o Brasil está tendo.
    A volta de OSPB como matéria escolar, geografia e principalmente história contemporânea para a formação de cidadãos devidamente informados e prontos a entrarem no mercado de trabalho e vida pública.

  • tbrasilis

    a educação é a base, e finalmente um governo trabalha sério nesta área e começa a obter resultados expressivos.

  • Protógenes Dantas Cardozo

    Tem que dar educação, com consciência política, senão, só teremos mais “coxinhas” letrados …

  • Maria Dilma

    .Algum repórter poderia voar para o Ceara neste minuto?

    Espero que a realidade confirme a expectativa.

    Enfim, Hadad foi o único realmente bom. Então que diferença faz?

  • Canario da terra

    Ao comemorar 100 anos de independência, o Brasil constatava que apenas 20% dos jovens estavam matriculados em alguma escola (os abastados), ao contrário do que ocorria em outros países do cone sul, Argentina, Uruguai, Chile, etc, onde 80% estudavam.

    Esse quadro mostra factualmente a opção de nossa perversa elite em relação á maioria dos brasileiros, uma visão análoga ás demais necessidades no campo social, como moradias, etc.

    Essa elite, que derrubou até a monarquia, assim pensa até hoje ou seja, só ela foi escolhida pelos céus para usufruir das benesses desse mundo.

    E quem divergir desses critérios é subversivo.

  • MARIA APARECIDA VERÍSSIMO

    Quando pessoas questionam que os alunos não sabem ler ou escrever,sendo analfabetos funcionais isso indica o reflexo da progressão continuada promovida pela SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DE SPAULO,,cujo partido é o PSDB. O que as pessoas esperariam desses resultados/

  • TROCINHO

    Todo cidadão brasileiro sabe que governar só com analfabeto é maravilha para reacinário.
    FHC sabe muito bem disso, e afirmou quando nada investiu na educação do Brasil por um período de 8 anos.
    Não fez uma escola técnica sequer, ao contrário fechou, como foi o caso em Sergipe.
    plim-plim

  • NADJA

    Com mão de obra qualificada vamos equalizar a renda nesse país ( O capital de T. Piketty)
    Quem não ler Piketty , corre o risco de comentar política com olhares de século XX.

  • Carlos Fraga

    “Cid Gomes foi o governador da Educação”
    PHA, com base em ?????

  • Jota Maués

    Imagina tudo isso e mais com a grana vinda do Pré-sal. Chora, tucanalha.

  • maria

    Mais uma vez eu tenho que questionar, me refiro ao Cid Gomes, pois não é isto que estamos ouvindo por ai.Será que a Dilma fez uma boa escolha ? Cabe a ele dar a resposta não pra mim, mas para essa juventude que aumeja um diploma universsitário de qualidade.E ai e volto a falar que é preciso valorizar os professores do Brasil.

  • zepgalo

    Na parte das universidades o trabalho tem sido bem feito. O problema principal do Brasil é a educação básica, com professores muito mal remunerados e ensino de baixa qualidade. Além de dificuldades em relação aos jovens de hoje, que por motivos diversos, são muito indisciplinados.

    Como a educação básica não é de competência federal, é muito difícil a solução do problema. Para o desenvolvimento do país, seria bom um projeto de escolas federais para os melhores alunos, pegando da quarta ou quinta série por exemplo, e colocar os melhores professores, muito bem remunerados para atrair gente boa, e todo apoio aos alunos para se transformarem nos cérebros científicos do país. A China e a Coréia fazem algo parecido, parece que deu certo.

    Enquanto isso não dá resultado, é tentar fazer o mesmo nas universidades, premiando e contratando os melhores e mais brilhantes alunos para desenvolverem projetos de importância estratégica para o país. E nunca é demais insistir: tem que remunerar bem quem está envolvido. O sujeito precisa sonhar em fazer isso, só com amor isso não acontece … Pragmatismo é essencial pra isso dar certo.

  • Tarcisio Antonio do Nascimento

    Aceitei a indicação do ministro da educação e até fiz elogios. Em poucos segundos fui bombardeado com várias críticas, amigos professores, mestres, doutores, até quem não conheço criticaram minha , posição. Respondi: vamos esperar a atuação do ministro poiso Ceará destacou-se como a melhor educação pública, mesmo assim uns apontaram diversos nomes para a pasta, mas a escolha e a responsabilidade é da Presidenta, somos republicanos, precisamos aguardar um pouco, dar um tempo de governabilidade e governança.

  • Maria Alba Friger

    Como seria bom uma melhora substancial na educação básica. A garotada desaprendeu a essência. Não sabem ler, escrever… não entendem significados. A língua portuguesa está sendo vilipendiada. Até professores, que fazem ou fizeram mestrado, são péssimos de escrita e leitura. Fora a desinformação cultural . Nem sabem onde fica a Península Ibérica e os países que a formam. Nunca o ensino foi tão sucateado como nesses tempos. Será que há interesse em melhorar?

  • Ministro Paim continuaria a ser um excelente Secretário-Executivo e o atual um ótimo titular da SESU. Todos ganharíamos pela continuidade dos processos de transformação e garantia de verve política com Cid ministro.

  • Marcelo

    Com Cid Gomes na Educação, teremos um salto de qualidade. Quem é do Ceará pode deixar o testemunho aqui, ensino que não deve nada ao primeiro mundo. Cid é Rei, se elegeria novamente no primeiro turno. Tomara que volte como o Senador mais votado do país.
    Mas é claro que não pode ser boicotado pelos governadores Tucanalhas e a falsa oposição do PSB. PULSO FIRME ele tem! Que Deus o ajude!
    Pra ficar perfeito, Haddad presidente 2018.

  • João da Roça

    Os Tucanos faltaram a aula de Nacionalidade, estão tomando “zero” do Povo.

  • flaino...

    Excelentíssimo Cid Gomes: “renda mínima” é com o Suplicy. Entendeu?

  • Regina Braga

    Pois é…muita responsabilidade para o Cid.Reforma da educação passa por reforma de cultura.Chama o Celso Amorim pra fazer a revolução que sonhamos! Números não mostram qualidade!

  • Ivan King

    PHA, gostaria de saber se o Cid Gomes é mesmo o infeliz que disse que professor deve trabalhar por amor…… se for, mais uma porcaria no ministério brancaleone da Dilma – 15. poucos se salvam……

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