Sexta-feira, 24 de Maio de 2013

Publicado em 03/07/2012

A Lei Ustra (ou Curió)
da Anistia já assa

O Brasil não aguenta mais viver sob o opróbrio da Lei Curió da Anistia.

Lembra alguma coisa, Ministro Eros ?


Ao ler os primeiros capítulos de “Mata ! – o major Curió e as guerrilhas do Araguaia”, de Leonencio Nossa, editado pela Companhia das Letras, uma dúvida apossou-se do ansioso blogueiro.

Chamar a Lei da Anistia que nos envergonha de “Lei Ustra da Anistia” ou “Lei Curió da Anistia”.

Quem representa melhor o Brasil que se esconde atrás da Lei da Anistia: Ustra, que acaba de ser condenado.

Ou Curió, o herói que reviveu no Araguaia o que a República adolescente fez em Canudos: um morticínio !

Isso vai durar pouco.

O Brasil não aguenta mais viver sob o opróbrio da Lei Curió da Anistia.

Aquela que Eros Grau relatou e a maioria do Supremo seguiu.

Com o argumento de que foi resultado de “un gran acuerdo”- o acordo do lobo e do cordeiro à beira do Lago Paranoá.

Para entender por que o Supremo, breve, se arrependerá do que fez, leia a entrevista que o Procurador da Republica Marlon Weichert deu à BBC:

MP investiga 70 casos para abrir processos contra agentes do regime militar


Ruth Costas
Da BBC Brasil em Londres

Jovens protestam para pedir a prisão de torturadores do regime militar durante a Rio +20: debate reaberto

O Ministério Público Federal (MP) está investigando mais de 70 casos de abusos aos direitos humanos cometidos pelo regime militar para propor ações criminais contra agentes da repressão responsáveis por mortes ou desaparecimentos no Brasil.

A informação é do Procurador da República Marlon Weichert, que conversou com a BBC Brasil durante um seminário do Transitional Justice Research Group da Universidade de Oxford para discutir o que vem sendo chamado de “justiça de transição” – as medidas e iniciativas introduzidas em vários países para lidar com violações aos direitos humanos de regimes autoritários e guerras civis.

No entendimento de alguns promotores brasileiros, a Lei de Anistia, que tem garantido impunidade por abusos contra direitos humanos cometidos durante o regime militar, não pode ser aplicada em casos de crimes mais graves, como sequestro, tortura e morte sob custódia.

Eles argumentam que a decisão da Corte Interamericana dos Direitos Humanos sobre o caso Araguaia trouxe novos parâmetros para a interpretação da Lei de Anistia, e estão empenhados em levar militares e policiais ao banco dos réus com base nessa nova interpretação.

Em 2010, a Corte exigiu que o Brasil investigasse e punisse os responsáveis pelas mortes no Araguaia e condenou o uso da Lei de Anistia para impedir a perseguição criminal de agentes da repressão.

Envolvido nas buscas de corpos de desaparecidos desde 1999, Weichert é um dos mais ativos defensores dos direitos das vítimas da repressão dentro do Estado brasileiro. Instaurou inquéritos que permitiram a retomada da identificação das ossadas do cemitério de Perus e a reunião de provas sobre a repressão no Araguaia.

Segundo o promotor, dois grupos de trabalho foram criados no MP no ano passado para montar casos contra policiais e militares: um focado em investigações criminais, outro dedicado a ações civis pedindo que torturadores reembolsem o Estado pelas indenizações a suas vítimas.

Um precedente importante nessa área foi criado na semana passada, quando o coronel da reserva Carlos Alberto Brilhante Ustra foi condenado por uma corte paulista a pagar R$ 100 mil a familiares do jornalista Luiz Eduardo Merlino, torturado e morto em 1971.

Ao contrário do que acabou ocorrendo em países como Chile e Argentina, juízes brasileiros ainda resistem muito em aceitar exceções ou reinterpretar a Lei de Anistia.

Antes da decisão da Corte Interamericana dos Direitos Humanos, o Supremo Tribunal Federal respondeu a um pedido da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para revisar a aplicação da Lei de Anistia dizendo que não cabia ao Judiciário revisar o “acordo político” que resultou na adoção dessa lei.

A seguir, a entrevista de Weichert à BBC Brasil:

“Pedimos que agentes da repressão sejam impedidos de exercer cargos públicos, tenham seus proventos de aposentadoria cassados e sejam obrigados a repor aos cofres públicos indenizações pagas a vítimas e familiares”
Marlon Weichert, procurador da República

BBC Brasil – A recusa do Supremo Tribunal Federal de reinterpretar a Lei de Anistia não encerrou o assunto?

Marlon Weichert – Não. A decisão da Corte Interamericana foi emitida depois disso e diz que a anistia não pode barrar punições por violações graves. Ao reconhecer a jurisdição da Corte, o Brasil aceitou que houvesse um duplo crivo para a análise de casos de abusos aos direitos humanos no país. A Lei de Anistia não passou pelo segundo crivo.

BBC Brasil – Mas a decisão da Corte foi ignorada pelo Brasil…

Weichert – Para nós, do MP, a decisão foi um divisor de águas e somos um órgão do Estado. Hoje mais de 70 investigações estão em curso para embasar ações criminais contra policiais e militares – e a maioria foi aberta no último ano.

BBC Brasil – O que mais está sendo feito?

Weichert – Foram formados dois grupos de trabalho no qual estão trabalhando de 20 a 30 promotores. Um para ações civis e outro para criminais. O primeiro grupo abriu oito processos contra torturadores e pessoas que ajudaram a ocultar corpos e há mais dez investigações em curso. Pedimos que agentes da repressão sejam impedidos de exercer cargos públicos, tenham seus proventos de aposentadoria cassados e sejam obrigados a repor aos cofres públicos indenizações pagas a vítimas e familiares.

O segundo grupo toca essas 70 investigações criminais. Duas ações já foram requeridas na Justiça (contra Ustra e o coronel reformado Sebastião Curió). Por enquanto, os juízes não têm sido favoráveis, mas esperamos uma mudança
.

BBC Brasil – Há consenso sobre o tema no MP?

Weichert – Não. Mas os promotores agem com independência. Quando começamos a buscar desaparecidos só eu e uma colega apoiávamos ações criminais. Agora, metade dos promotores parece ser favorável a essa posição. Além disso, no ano passado a Coordenação dos Direitos Humanos e a de Direito Criminal do MP estabeleceu que deveríamos cumprir a decisão da Corte Interamericana.

BBC Brasil – Como essas investigações se articulam com a Comissão da Verdade?

Weichert – Pode haver uma sinergia (entre as investigações), embora não haja dependência. Nossas investigações têm por base pesquisa documental e depoimentos das vítimas.

BBC Brasil – Mas por que o empenho do MP nesse momento? Por que os juízes mudariam de ideia?

Weichert – A Constituição atribuiu ao MP o dever de defender os direitos humanos e buscar ações penais. É nossa obrigação abrir esses processos. Hoje há preconceito dos juristas brasileiros com o direito internacional. Temos uma cultura jurídica de 50 anos atrás. Mas vários países passaram por essa transição e acabaram aceitando a autoridade do direito internacional. No Brasil não será diferente. Na pior das hipóteses em quatro ou cinco anos a decisão da Corte Interamericana acabará sendo cumprida. E mesmo antes disso teremos decisões favoráveis.

BBC Brasil -O Brasil começou sua política de reparações pelas indenizações financeiras. Desembolsou mais de R$ 2 bilhões antes que uma comissão da verdade abrisse o debate sobre os danos a serem reparados. Além disso, as maiores indenizações não foram para parentes dos mortos, mas para aqueles forçados a abandonar altos cargos no período autoritário. Isso tudo não prejudicou a causa das vitimas frente a opinião pública?

Weichert – Talvez esse não tenha sido o melhor caminho, mas foi o caminho possível. Não há receita de bolo para se fazer “justiça de transição”. No caso da política de indenizações, o problema foi o desenho das leis que a definem.

BBC Brasil – O que esperar da Comissão da Verdade?


Weichert – Ela cumpre um papel crucial, embora sem punições seu trabalho estaria incompleto. A punição de uma pessoa dissuade outras de cometerem o mesmo crime e ajuda a prevenir de forma geral as violações aos direitos humanos. Ainda assim, a comissão pode ter um grande impacto se ajudar a acabar com os enclaves autoritários nas instituições brasileiras. Ainda temos estatutos escritos na ditadura regendo a ação de militares e policiais.

BBC Brasil – O brasilianista Anthony Pereira, do King’s College, diz que o Judiciário brasileiro é reticente em aceitar processos contra militares porque muitos perseguidos políticos passaram pelos tribunais durante o regime. Como vê essa tese?


Weichert – O Judiciário precisa fazer uma autocrítica ao seu papel no regime. O fato de o Congresso e a Justiça continuarem ativos deu uma fachada de legalidade à ditadura e hoje complica a depuração do que aconteceu no Brasil – porque no imaginário de parte da sociedade não houve ruptura. Por isso é importante que a Comissão da Verdade promova uma avaliação do papel das instituições no regime militar. Ela poderia convidar não só o Judiciário, mas também o MP e outras instituições para tentar entender por que aderiram a um sistema arbitrário ilegal.


Comentários

  • Urbano

    Será que os crápulas dos torturadores já ouviram a música “Par ou Ímpar”, do Guinga?

  • alberto

    seria bom ver a História reescrita, passando por Canudos e sendo iniciada na valorização do General Manuel Luis Osório, para mim, o verdadeiro Patrono do Exército Brasileiro

  • Armando

    O comando do exército poderia fornecer mediante solicitação uma relação com os nomes de todos os membros do judiciário brasileiro que já foram “agraciados” com essas comendas.
    Assim teríamos noção da dimensão dessa postura bajuladora por parte dos militares em torno dos magistrados brasileiros.
    É algo constrangedor

  • Armando

    Os magistrados brasileiros deveriam ter a dignidade de devolver as “condecorações” que os militares bajuladores estão sempre lhes oferecendo de forma sistemática e interesseira em “agradecimento” aos “relevantes serviços” prestados ao exército.
    É muito constrangedor que Ministros de Tribunais Superiores, Desembargadores e Juízes Federais sejam presenteados pelos militares com as mesmas medalhas que eram oferecidas aos criminosos da ditadura.

  • Sergio Vianna

    O exercício da cidadania passa pela insistência da população em investigar os crimes de Estado. E se há setores institucionais em consonância com o direito do cidadão, como esta ação de alguns procuradores do Ministério Público, ainda se mantém a esperança de um dia reescrevermos a história do Brasil, incluindo nela as barbaridades praticadas por agentes representando o Estado.

    Não há negativa da elite que sobrestará o direito do povo em buscar a plena cidadania. E por elite entendam o judiciário, o legislativo, o executivo, as polícias estaduais e federais, a imprensa e seus ramos televisivo e radiofônico, as entidades de classe, a igreja católica papal e os ramos pentecostais conservadores, sejam quais forem os representantes dessa elite que quer guardar a história real num baú no fundo de porão.

    O Brasil forte e se apresentando ao mundo como pátria da dignidade e prosperidade, da comunhão entre povos, da atuação respeitosa aos direitos humanos fundamentais, da liderança regional ou mundial nos diversos fóruns que participa, exige a verdade.

    Verdade que somente existirá quando não mais temermos contar nossa história com todas as nuances. Não há do que se envergonhar. Vergonha é coisa de salafrário que não quer ser descoberto. E o Brasil quer ser visto e entendido como nação de todos os brasileiros, inclusive daqueles que mancharam nossa história.

  • R

    A Comissão da Verdade já começou a deixar gente de cara vermelha, é bom se mexer mesmo, para não passar vergonha ao final das apurações.

  • A preocupação com a direita no Brasil que financia partidecos que tem acessos as mobilizações de funcionários públicos. Greve em todos os setores da união pig estimula o movimento dos funcionários… preocupa a maneira que esse povo estão se mobilizando no tempo de desgaste do psdb frente a cpmi do cachoeira.

  • kalifa

    Crime contra a humanidade não prescreve e nem transitam em julgado se as provas forem novas e carreadas aos autos!

  • Vinicius Garcia

    Pena que a maioria desses “homens” estão mortos, deveriam pagar com a vergonha da condenação pelo ato cometido, sinto um pouco tardia a resposta aos atos cometidos, mas deve servir para atemorizar futuros casos.

  • Lenir Vicente

    A Comissão da Verdade é um passo importante para buscar as informações que poderão embasar futuras ações penais contra aqueles que praticaram crimes de tortura e assassinatos.Mas o Judiciário precisa mesmo fazer uma autocrítica.Está devendo ao Brasil a isenção que se esperava dele durante a ditadura.Será que o medo vai prevalecer?

  • Se os juízes … fossem maioria no STF e no Brasil, esses assassinos já teriam sido julgados e condenados aqui e no Tribunal Penal Internacional !

  • mara maria

    Tá dificil, mas a luta continua. Deram muita corda aos abusos de autoridade e agora precisa de pressa e gente pra puxar essa corda. Nao da mais pra conviver com autoridades que nao rezam na carta maior.

  • Yacov

    É golpe em Honduras, é golpe no Paraguay, que agora quer entrar na ALCA. Daqui a pouco é golpe na Bolívia e, logo, no Brasil. Acho que os torturadores de pijama e bengala ainda esperam ser convocados para prestar seus serviços ás nossas nobres elites…

    “O BRASIL PARA TODOS não passa na glOBo – O que passa na gloBo é um braZIL para TOLOS”

  • Mardones Ferreira

    Os ocupantes desse grupo de trabalho do MP precisa visitar mais vezes o CAF, por meio de reportagens como essa.

    Precisamos ficar a par dos desdobramentos das ações que ocupam tantos profissionais do MP.

    Excelente iniciativa do MP.

  • Carla M.

    Que inveja da Argentina e do Chile…

    • Cristian Molina

      Não entendi sua inveja, aqui morreram 600, lá foram milhares. Toda essa conversa e dinheiro gasto só serve para uma coisa, afastar os olhos da sociedade para o que acontece hoje no País. Quer saber o que é tortura? é só visitar um presídio e você vai descobrir como transformam uma pessoa em lixo, presos amontoados em celas fétidas e quentes, muitos fazem suas necessidades fisiológicas em embalagens de quentinha, na presença de outros presos. Muitos são espancados pelos agentes penitenciários ou pelos próprios presos. Vamos pedir uma Comissão da Verdade para averiguar isso?

  • serpa

    È por isso que o povo cada vez confia mais em Dilma. Reparando as injustiças, mesmo com essa justiça.

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