Quarta-feira, 01 de Outubro de 2014

Publicado em 22/03/2011

Venício: o silêncio como censura. Ou Roberto Marinho

O Conversa Afiada republica artigo do professor Venício Lima, extraído do Observatório da Imprensa

 

Os dois sabiam como se faz uma censura: com o NÃO

 

O Conversa Afiada republica artigo do professor Venício Lima, extraído do Observatório da Imprensa:

LIBERDADE DE EXPRESSÃO


O silêncio como forma de censura



Por Venício A. de Lima em 22/3/2011


Em debate recente cujo tema foi “Censura e liberdade de expressão: por uma outra mídia”, promovido pela Secretaria de Audiovisual do Mininstério da Cultura e pelo programa de pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal Fluminense, realizado no Rio de Janeiro, tentei argumentar que, contrariamente ao “eixo discursivo” dominante na grande mídia, o Estado não é o único censor e, muitas vezes, nem sequer o mais importante. Existem várias formas de censura e, por óbvio, diferentes censores (ver, neste Observatório, “A privatização da censura”).


Estamos nos referindo à censura da palavra, da expressão que é um direito humano fundamental da pessoa, do indivíduo, do cidadão. Esta censura é anterior à existência não só de Gutenberg – vale dizer, da possibilidade de se imprimir – como é muito anterior à existência da instituição que passou a ser conhecida como “imprensa” e hoje chamamos de “mídia”.


A “cultura do silêncio”


No Brasil, onde a “imprensa” tardia chegou somente no século 19, lembrei-me de trecho conhecido do Padre Antonio Vieira que, em sermão pronunciado na Bahia, ainda em 1640, afirmava:


“Bem sabem os que sabem a língua latina, que esta palavra – infans, infante – quer dizer o que não fala. Neste estado estava o menino Batista, quando a Senhora o visitou, e neste permaneceu o Brasil muitos anos, que foi, a meu ver, a maior ocasião de seus males. Como o doente não pode falar, toda a outra conjectura dificulta muito a medicina. (…) O pior acidente que teve o Brasil em sua enfermidade foi o tolher-se-lhe a fala: muitas vezes se quis queixar justamente, muitas vezes quis pedir o remédio de seus males, mas sempre lhe afogou as palavras na garganta, ou o respeito, ou a violência; e se alguma vez chegou algum gemido aos ouvidos de quem o devera remediar, chegaram também as vozes do poder, e venceram os clamores da razão”.


Apoiado neste diagnóstico precoce de Vieira, o educador Paulo Freire, em vários de seus escritos, fala da nossa herança colonial de “mutismo” e mais tarde da “cultura do silêncio” dos oprimidos, impedidos de ter voz, mergulhados na submissão pelo silêncio (cf. Venício A. de Lima; Comunicação e Cultura: as idéias de Paulo Freire; Paz e Terra, 2ª. ed., 1984).


Não seria essa uma forma histórica de censura na medida em que a “cultura do silêncio” nega a boa parte da população sua liberdade fundamental de palavra, de se expressar? E quem seria, neste caso, o censor?


No Brasil colonial, certamente o Estado português e os muitos aliados que se beneficiavam da opressão aos povos nativos e aos escravos africanos. A própria sociedade era também “censora”, na medida em que convivia culturalmente com a exclusão de vários segmentos de qualquer participação civil. Por exemplo, as mulheres.


Silêncio como censura


Nada disso é novidade, mas certamente ajudará, sobretudo aos jovens de uma sociedade onde nascem novas formas interativas de comunicação – as TICs – a compreender a verdadeira dimensão de conceitos como censura e liberdade de expressão.


Nessa nova sociedade-rede, uma forma disfarçada de censura é o silêncio da grande mídia em relação a determinados temas. Considerando que a grande mídia ainda é a principal mediadora e construtora dos espaços públicos, um tema deliberadamente omitido está sendo sonegado e excluído desse espaço, vale dizer, da possibilidade de fazer parte do conhecimento e do debate público.


Um exemplo recente dessa censura disfarçada foi o silêncio sobre as manifestações populares que mobilizaram centenas de milhares de pessoas por várias semanas em Madison, a capital do importante estado americano de Wisconsin (ver aqui matéria do New York Times).


Ao mesmo tempo em que sociedades autoritárias explodem no Oriente Médio, fruto de mobilizações populares – com ampla, mas seletiva, cobertura da grande mídia ocidental –, trava-se na mais poderosa democracia do mundo a primeira de uma série anunciada de batalhas entre sindicatos de trabalhadores do serviço público e governos estaduais. Os próximos estados serão Ohio, Michigan, Iowa e Indiana.


Está em jogo não só o poder de barganha desses sindicatos, como o valor das aposentadorias e seus planos de saúde. Na verdade, a corda está arrebentando do lado dos trabalhadores e eles estão reagindo. Não se sabe até onde a resistência sindical conseguirá envolver e mobilizar também outros setores da sociedade que sofrem as conseqüências da crise econômica de 2008. E, menos ainda, quais conseqüências essas mobilizações poderão produzir não só nos EUA como em outros países.


Você leitor(a), conhece a cobertura que essas manifestações mereceram na grande mídia brasileira?


Censura x liberdade de expressão x liberdade de imprensa


A discussão de temas como censura, liberdade de expressão e liberdade de imprensa é sempre oportuna entre nós. O historiador Aloysio Castelo de Carvalho no seu A Rede da Democracia (NitPress/Editora da UFF, 2010) – onde fica demonstrado o conluio dos jornais O Globo, O Jornal e Jornal do Brasil, unidos para derrubar o governo democrático de João Goulart, em 1964 – adverte:


“A liberdade de imprensa é um eixo discursivo dos jornais quando eles querem se valorizar como único canal de expressão da opinião pública”.


As novas gerações precisam conhecer a história da censura no Brasil e incluir aí não só a censura exercida pelo Estado, mas outras formas de censura: aquela que vem de nossa herança colonial de “cultura do silêncio” e também a censura disfarçada exercida pelo silêncio deliberado em relação a certos temas, pratica rotineira na grande mídia.




Em tempo:
na Globo se atribuía a Roberto Marinho a seguinte frase: o importante não é o que eu publico, mas o que eu NÃO publico. Ou como disse o Ministro Rubens Ricúpero: o que não é bom eu não conto. E assim elegeu Fernando Hernrique, na Globo. (PHA)

 

 

 

Comentários

  • jcm

    Eu quase não assisto a tv; mas sobre as manifestações nos EUA, saiu algo na Record? Nas tvs do governo? Se nem la deram muita importancia, a globo iria dar?

  • Manoel Coriolano

    Parabéns ao sr. venicio pelo artigo e parabéns também ao PHA por divulgá-lo. Sempre observei esse comportamento da imprensa. Eles não têm respeito pelos seus leitores e telespectadores. Pensam que todos são otários. Liberdade de imprensa é o direito das pessoas serem informadas com honestidade sobre todos os acontecimentos e não somente o que é do interesse da mídia . Hoje graças aos BLOGs de jornalistas comprometidos com a verdade temos onde desabafar.

  • RONALD

    Falando em censura…..cade o livro do AMAURY ??????

    E a GLOBO vai continuar mesmo mandando no nosso futebol e ninguém vai dizer nada desses porcos dirigentes de nossos clubes ?????

    Sou torcedor do coritiba (com letras minúsculas mesmo, COXA BRANCA) e fiquei indignado com a assinatura de exclusivdade do meu time com a rede bobo…..uma palhaçada……

  • Cezar

    Já no 1º dia do escândalo do governo do GDF, enquanto alguns jornais e telejornais fora da capital do país anunciavam a tal Caixa de Pandora e panetonegate com dezenas de vídeos deflagrados por um delegado, o CORREIO BRAZILIENSE (jornal da cidade) optou por manchete genérica, dando ares de normalidade. O título que foi para sua capa: “GDF e Distritais são alvo de investigação”. E adiantava no subtítulo o tom da cobertura: “PF e justiça apuram suposto esquema de propinas a parlamentar”. Enquanto isso os jornais mais influentes do país trouxeram em suas capas:

    “Governador do DEM é suspeito de pagar propina a deputados”.

    “PF grava José Roberto Arruda negociando repasse de dinheiro com assessor”.

    “Governo do DF é acusado de corrupção”

    “Polícia flagra `mensalão do DEM´ no governo do DF”

    Logo no primeiro dia, o nome do governador do Distrito Federal estava nas manchetes. Menos no famigerado CORREIO BRAZILIENSE… uma afronta ao seus milhares de assinantes de Brasília e do Brasil.

  • Thiago

    Os maiores censores do Brasil hoje são daqueles que lutam contra a Ley Medios sob alegação de “não voltar a censura” irônico não? Para eles, a liberdade é válida apenas quando atende o seus interesses.

    Mas vamos ser justos, aqui tb já houce censura. Eu e o Passarinho Pentelhão já tivemos post cesurados por não concordar com a defesa do distrintão.

    Temos que dar exemplo e concordar com a corrente contrária tb.

  • claudio almeida

    O PIG no geral, com a Globo em particular, são meros orgãos de censura privada, tão medíocres e arrogantes como os da pública. Para a realização desse serviço sujo, contam com a participação de agentes covardes e patifes, que exibem diplomas de jornalistas, coisa que não são, nem aqui e nem na China.

  • Gustavo Torres

    Esplêndido… a “cultura do silêncio” está enraizada no âmago das elites brasileiras… eles são “donos” da mídia, sete famílias dominam as corporações midiáticas, por exemplo, o grupo do Tarso “tenho jatinho que pq posso” Jereissate amplia seu domínio midiático no nordeste ao comprar várias filiadas na globo no nordeste que são deficitárias…
    Nos oferecem o que há de pior no jornalismo e silenciam sobre os amseios da população… verdadeira censura editorial!
    A internet é uma improtante aliada, mas, parafraseando PHA, não haverá verdadeiramente um regime democrático enquanto não for quebrado o monopólio midiático das famílias oligárquicas dominantes…
    É um processo penoso, demorado, mas estou certo que estamos vivenciando o início da derrocada da grande mídia… não estaremos vivo para ver a conclusão, mas blogs como CAF entrarão para a história e tudo terá valida a pena!

  • Yarus

    A Foia não apurou, quem vai apurar?

    “Folha de S.Paulo registra jornalistas como assessores administrativos

    A Folha de S.Paulo registrou dois jornalistas como assessores administrativos. A informação foi confirmada pelo vice-presidente do Comitê de Imprensa do Senado, o jornalista Fábio Marçal, que também é membro do Conselho de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal.

    O Comunique-se teve acesso aos documentos que comprovam a irregularidade na contratação dos jornalistas. Nos dados, o jornal alega que o registro como assessor administrativo é uma norma da empresa. “Eu não sei se eles fazem isso pra fugir do sindicato ou pra burlar a legislação, é um absurdo”, contestou Marçal.”

    Procurada pela reportagem, a Folha ainda não se manifestou sobre o caso.”

    http://www.comunique-se.com.br/conteudo/newsshow.asp?menu=JI&idnot=58255&editoria=8

  • yacov

    “LAW OF MIDIAS, NOW!!!!!!!!!!”

    “O BRASIL PARA TODOS não passa na glOBo – O que passa na glOBo é um braZil para TOLOS”

  • Diógenes

    Para o Farol de Alexandria e o Padim Pade Çerra falar da classe C é tabu. A PIG ama o Farol de Alexandria e o Padim Pade Çerra .

  • marcos

    A ley de medios já saiu do papel? Ainda não?

  • paulo rafael pizarro

    Semana passada para confirmar essa tese perguntei a algums amigos se sabiam das manifestações nos em alguns estados americanos. Ninguém sabia.

  • Apolônio

    Parabéns pelo excelente artigo, temos que ter no Brasil, liberdade de imprensa, mas, antes dela, temos que ter o mais importante, liberdade de informação, essa sim, é a mais importante. O silêncio da mídia, diante de atos de governos do PSDB e DEM, é um atentado a livre informação, a liberdade de informação. Uma pergunta, alguém esta vendo nos grandes jornais, televisão, etc, o que o Lula tem feito ultimamente? Claro que não. Cabe então os blogueiros progressistas, divulgar todas as atividades do Lula e forçar a grande imprensa a fazer o mesmo. A mídia quer apagar o Lula. Não devemos deixar.

  • roubrdario diniz valerorio

    e por falar em omissão. O que realmente aconteceu na Usina de Jirau. Não vi nada. Li algo de que a Camargo Correa “devolveu” aos seus locais de origem 8000 trabalhadores. Houve ali um belo conflito e não tive oportunidade de saber nada. Quem vai nos trazer a verdade factual?

  • Pablo

    Vai ai minha crápula e suja mensagem, o de preto é o Tataglia e o de branco é o Barzini, tremendos pulhas da informação e do silencio praticado contra o Povo da nação Continental Brasilis, a sua hora está chegando e vai ser para sempre, nunca mais, e jamais será como antes. Viva o Brasil A Lei de Medios já é uma Impossição é O Povo que governa e por ele se governa, Povo Unido Jamais Será Vencido. Viva o C AF.

  • nelson freitas

    Fernando Henrique Cardoso, Zé Serra, Mário Covas e Geraldo venderam o Brasil, isso não tem perdão, a história massacrará estes vermes. Isso tudo vem lá de São Paulo.

  • A censura existe no Brasil, e é praticada abertamente pelas seis ou sete famiglias que dominam a mídia tradicional. Como bem diz Paulo Henrique Amorim, jamais teremos uma verdadeira Democracia enquanto estivermos submetidos a esta mídia cartelizada, anti-nacional e golpista.
    Trato do tema no meu modesto livro “A Imprensa x Lula – golpe ou ’sangramento’?” (All Print Editora) que, aliás, traz uma importante entrevista com o PHA, assim como com o Rodrigo Vianna, o Eduardo Guimarães e a deputada Luíza Erundina.
    (Desculpem o merchã, mas acho que toda iniciativa para esclarecer a questão midiática e denunciar a censura merece ser propagada – não façamos, nós, o silêncio…)

    • GLAUCO

      Caros Antonio e PHA, não sei se vocês assistiram o jonal da globo de quinta (categoria) ou sexta da semana passada. Há certa altura o nosferatu waack, se referindo a Honduras, deixa escapar que lá, no ano passado, houve um GOLPE. Na sequência, mais que de imediato, se corrige e diz, no maior cinismo, que foi uma CRISE INSTITUCIONAL. É mole ou quer mais?!

  • Luciano A. Nascimento

    Aí se falou numa coisa que ainda nao havia ouvido alguem dizer, e que penso ser muito importante a discursão, e é inclusive a forma como o PSDB usa para sensurar as opiniões opostas ao seu legado “intelectual” a Censura Privatizada. Que nada mais é, do que o papel efetuado pelo PIG.

  • Edvard

    E a censura do políticamente correto?
    Não é uma forma de impor uma modo de vida?
    E a censura por meio da pilhéria? Veja a forma com que um deputado que teve bem mais de 1 milhão de votos é tratado pelo PIG.
    E as demissões de jornalistas a pedido de políticos?

  • Bouzas

    E a TV Globo já mostrou diversas vezes que prefere o silêncio das ditaduras.

  • bene nadal

    O pior de tudo é que essa herança maldita da ditadura, esse cancer da sociedade, continua forte e firme, com poucas chances de ser erradicado com rapidez. Com suas ações nefastas implantadas na cabeça dos brasileiros, principalmente das mulheres com suas degradantes novelas, recheadas de propagandas subliminares, todas nefastas, e seus noticiários completamente parciais, defendendo interesses expúrios, contrários aos interesses dos brasileiros. Com peso absurdamente grande sobre a cabeça dos nossos políticos papa-votos, cujo interesse quase único é a perpetuação no poder, quase sempre em detrimento da população.
    Com a ascenção dos governos trabalhadores, algumas esperanças surgiram, porém quase sempre frustradas pela inação ou pela pouca ação dos nossos legisladores, que tem pouco ou nenhum interesse em se dispor a combater essa malignidade, resta-nos o heroismo de alguns que irão com certeza empreender grande luta contra essas forças que cairão sim, mas não sem lutar muito, temos que ter grande dose de paciência e resignação, e dentro do possível sermos guerreiros tenazes porque com certeza vai ser uma luta de titãs.

  • mauro hage

    Vamos criar uma agência reguladora da mídia, cujo papel sera obrigar a dar cobertura adequada ao que for de interesse público.

  • Zé Roberto

    Outro exemplo do silêncio como censura é a entrevista do Arruda à Veja. A revista guardou-a na gaveta durante meses. Não a publicou na época para evitar constragimento eleitoral às figuras que a revista dá tratamento diferenciado e cortez. Esta é a liderdade da imprensa brasileira, embrulhada no silêncio imposto pelo coronelismo midiático.

  • Cláudio

    Ótimo artigo. Parabéns PHA por mais esta contribuição.
    .
    Em 2011, já imaginou a Globo noticiar sobre os parentes das vítimas dos pilotos norte americanos que protestavam defronte ao Theatro em que o Obama falava?

  • Farpa

    A censura dos patrões midiáticos é um fato, mas a pergunta que fica é, porque os “jornalistas” atingidos calam, porque não denunciam? Seria pelo medo de perder o emprego, ou por concordarem com a diretriz política da empresa?

  • cerdo

    “A liberdade de imprensa é um eixo discursivo dos jornais quando eles querem se valorizar como único canal de expressão da opinião pública”.
    é verdade esse é o lema dos jornalecos brasileiros, poucos são os que se salva, no interior a coisa é desse geito o nome da brincadeira é “siga o lider” as opiniões, matérias, reporcagens e outros temas se repetem em todos, eu não ouvi falar na greve dos gringos deve ser porque o obama tava por aqui em terras tupiniquins e os sorridentes jornalistas do pig* não podem manchar a visita do DEMOMOR obama.

  • Hélio

    O PIG praticou e pratica a censura e a infamia contra o
    grande estadista Luiz Inácio Lula da Silva.
    Mas o povo tem os blogs ’sujos’ pra afrontá-los.

    Vida longa a blogosfera e em especial ao CAf.

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