Assim começa notável ensaio de Paulo Eduardo Arantes – “1964, ano que não terminou”, no livro “O que resta da ditadura”, ensaios organizados por Edson Teles e Vladimir Safatle, da Boitempo Editorial.
Clique aqui para ler “Safatle, o STF se prepara para produzir uma catástrofe”.
Arantes se vale aí de uma frase de Tales Ab’Sáber, autor de um dos ensaios do livro.
Arantes retoma os ensaios deste livro que permite entender o que o Supremo vai escrever em mármore, quando formalmente perdoar os torturadores do regime militar.
Ele inscreve o Brasil nas “sociedades do desaparecimento”, onde há o “poder desaparecedor”.
Onde, como dizia Graciliano, “não há direito, nenhum direito”.
A abertura de Geisel e Golbery, segundo Arantes, foi, na verdade, a “contenção continuada”.
Ao contrário do que tentou provar um best-seller de generalidades, “1964 foi o verdadeiro ano que de fato não terminou. Um tempo morto, esse em que a ditadura não acaba nunca de passar”.
Arantes cita Jeanne Marie Gagnebin – também ensaísta do livro – que invoca Adorno, que estabeleceu um novo “imperativo categórico”: agir e pensar de tal forma que Auschwitz não se repita.
Arantes parece dizer: o Brasil não realizou o imperativo categórico – e permite que a ditadura se repita, como faz, nesse instante, o Supremo.
“As ruínas continuam crescendo até o céu”.
Arantes lembra o ensaio de Jorge Zaverucha: a Carta outorgada pela ditadura em 1967, como sua emenda de 1969 simplesmente continua em vigor.
Há na Constituição de 88 uma constitucionalização do Golpe de Estado.
O artigo 142 da Constituição estabelece que as Forças Aramadas podem dar um Golpe constitucional para acabar com a bagunça.
Arantes avança num ponto muito interessante.
Por que a ditadura não vai embora ?
Porque a elite não confia na democracia.
A elite precisa das Forças Armadas e dos torturadores do regime militar para garantir que o povão não vai “ultrapassar o limite”, “fazer xixi fora do penico” – (as expressões chulas são minhas – PHA).
FHC disse que ia acabar com o getulismo, mas, o que fez foi institucionalizar a exceção (*), a intervenção militar, para impor a ordem.
Diz Arantes: “seria trocar uma mistificação ideológica – o presumido verdadeiro fim da Era Vargas – por um equivoco conceitual: como não houve interrupção, da Lei da Anistia ao contragolpe preventivo Collor/Mídia, passando pelo engodo de massas das Diretas, a ideia de uma restauração não se aplica.”
“Normalizada a violência política – graças sobretudo à impunidade assegurada pela Lei da Anistia -, a ditadura redescobrira seu destino: o estado de emergência econômico permanente”.
(Que a urubóloga Miriam Leitão proclama todas as manhãs: o mundo vai acabar ! – PHA)
Arantes toca num ponto agudo, ao desmontar a arquitetura ideológica que instrui a prolífica obra do jornalista Elio Gaspari.
O jornalista editado pela Companhia das Letras pretende fazer a História engolir que Geisel e Golbery foram Washington e Jefferson da construção da democracia brasileira.
Veja, amigo navegante, o que diz Arantes, com muito mais substância do que este modesto blogueiro:
“ … a narrativa de Elio Gaspari, segundo a qual Geisel e Golbery ‘ fizeram a ditadura e acabaram com ela’. A ideia dessa PROVOCAÇÃO DE ARQUIVISTA (a ênfase é minha – PHA) é impedir que se veja racionalidade onde não houve; ideologia em lugar da brutalização direta da política … a imaginação desperta quando chegamos aos motivos que levaram os dois demiurgos a desmontarem sua criatura: ‘porque o regime militar … ERA UMA GRENDE BAGUNÇA” (a ênfase é de Arantes).
A “grande bagunça” se pôde verificar na entrevista que Jarbas Passarinho concedeu a Maria Inês Nassif, no Valor.
“Bagunça”, como ?
Dizimar a direção do PC do B e estender a Guerrilha do Araguaia para legitimar e consolidar a exceção ?
Para concluir, com Arantes:
“Um primeiro regime de violência foi assim acionado num momento crucial da guerra contra a organização política das ‘pessoas comuns’, passando em seguir a lastrear as novas hierarquias sociais sem as quais não se reproduz o segundo regime de violência no qual ingressamos, um regime de acumulação sob dominação financeira marcado pela discricionariedade, pelo compadrio e pelo privilégio“.
Nesse ambiente pútrido, Arantes localiza:
“ … a armadura do nosso estado oligárquico de direito, estando em plena vigência o sublime instituto do habeas corpus, desde que as conexões sejam boas. A rigor, a guinada rentista do capital encontrou a casa arrumada pela ‘bagunça’ da ditadura”.
“O golpe (de 64 – PHA) agiu e fechou esse círculo, que hoje continua a rodar”.
Paulo Henrique Amorim
(*) Sobre “exceção”, Arantes recomenda ler Giorgio Agamben, também editado pela Boitempo.



Podemos resumir sem reducionismos, que a história brasileira não conhece rupturas. Os mais importantes processos, inclusive os mais recentes, foram frutos de acordos , patrocinados pelas elites, onde as esquerdas foram sempre coadjuvantes. As diretas já, o colégio eleitoral, a “redemocratização” e a famosa lei da Anistia; “ampla, geral e irrestrita”. Estes episódios sempre tiveram os “intelectuais” cantando loas, de acordo com as “condições objetivas”. Os chamados intelectuais”, sempre acharam poder fazer a “revolução” sem povo, sem massa. Como não tinham força e as “condições objetivas” eram contrárias, apoiavam os “democratas” nas concertações de cima. A primeira vez na história do Brasil que a esquerda assume o governo, “hegemonizando” uma coalizão, abrindo caminho para o protagonismo popular, o que fizeram os “intelectuais” de “esquerda”( façamos justiça à alguns poucos), esconderam-se na academia ou foram fazer oposição diletante ao partido e ao operario que “os traiu”. Pergunto quem traiu quem? Hoje quer queiram ou não o povo começa à se sentir protagonista. O caminho para a constituição de uma nova hegemonia, que possa aspirar e iniciar as rupturas está aberto . Precisamos politizar a ideologia com militancia clara, para que possamos ideologizar a politica. Venham “intelectuais ” para a praxis politica como está fazendo o Pt e sobretudo Lula.
[...] O que pensa essa rapaz ?, se perguntou o filósofo Paulo Arantes, numa sabatina da Folha (*), e autor de um brilhante ensaio sobre “1964, o ano que não vai embora”, ou “O que resta da ditadura ? Nada. Só a ditadura”. [...]
PH,
Por favor,
Dê nomes aos bois que fizeram, fazem e sonham em reeditar a ditadura.
Ou quem souber de particípes da ditadura que divulguem por favor.
Muito difícil, dificílimo se livrar daquela interrupção da normalidade democrática. O que se praticou em seguida, de enfiada, foram golpes de tal monta contra o povo brasileiro que nossos netos ainda irão se haver com os “filhotes da ditadura” e com o “entulho autoritário” (duas expressões muito comuns até os anos 90, agora em desuso).
Saúdo Paulo Arantes, meu velho e querido professor. Dava aulas de Filosofia Brasileira e enfocava a trajetória de João Cruz Costa. Tenho saudades.
não consigo votar nas enquetes dos internautas!!!!!!!!!!
Perfeito.
Sou fão do Lula, mas gostaria de perguntar. Ele teve a capacidade de perceber a questão?
O ovo da serpente está chocando!
os cavalos com seus soldados empunhando suas espadas , com suas lanças pontiagudas, estão dentro de seus currais cheirosos e enlamiados de grama e feno. os doutores com suas togas estão pendurados nos pijamas dos aposentados cheios de estrelas pelo corpo. só falta o tiro na dilma e dizer terrorista nunca mais. esse brasil sempre foi assim. quando comecei a entender de politicagem, pensaVA em poder, lealdade,verdade, etica e democracia plena. agora os homens de toga entregaram a anistia aos deputados federais para analizarem os termos da constituição. isso é nojento, fedido e sem vergonhice generalizada . nunca estivemos no mundo como estamos neste momento. nos não precisamos, mais tirar as nossas botas para serem revistAdas nos aeroportos dos estados unidos, não precisamos tirar nosso paletós e gravaTas. isso foi um dos argumentos que lula deixou bem claro para o ex-presidente bush. nosso representantes nunca mais abaixaram a cabeça. isso é respeito ao povo brasileiro, coisa que alguns elitizados não sabem e não conhecem. tenho dito……
O ano de 1964 não apenas não terminou, como começou bem antes, mais precisamente em 1500, com a chegada do explorador europeu, é nessa data que pode-se “marcar” o início do surgimento de nossa Sociedade, com uma classe dominante predadora e anti-nacional, acostumada a sustentar seus privilégios escandalosos com a força, o açoite que inicia-se no genocídio de índios e negros, passando por momentos em que as massas tentaram organizar-se num projeto de desenvolvimento, democrático e autônomo, e forma duramente dizimadas pela oligarquia dominante; momentos que vão desde a Revoluções Populares do século XIX até o golpe militar de 64, o qual não foi superado e por isso mesmo não teve os monstros criminosos dele participantes punidos. Afinal, a classe dominante que deu o golpe, saiu dele como vencedora(não houve ruptura, como bem diz Arantes), ela controla os meios de produção, a mídia; a Igreja, o Judiciário, a propriedade da terra. Somos reféns dessa corja, por isso o alcance limitado de Governos reformistas, como o de Lula, e a superação do poder desses pilantras só ocorrerá através de grandes mobilizações populares, através das quais os oprimidos organizem-se para a construção de uma nova Sociedade e a punição dos crimes praticados pelos dominadores.
Concordo plenamente com cada palavra dita. A Ditadura persiste na pessoa de grileiros como a Kátia Abreu, Ali Kamel, Civitas, Marinhos. Pessoas que tem o poder econômico e midiático.
A Ditadura em 1964 começou pela junção dos latifundiários com as Forças Armadas, para impedir o avanço da Reforma Agrária. Ainda hoje, se alguém ousar em falar em repartir com um pouco de justiça a terra que Deus criou para o homem e o sustento de seus filhos, é assassinado, como o foi Chico Mendes, irmã Dorothy. Os movimentos sociais são criminalizados pela Mídia, cujos donos são justamente os donos do poder midiático associados aos grandes latifundiários como Kátia Abreu. A DITADURA persiste, só está mais disfarçada.
Para acabar com o que resta da ditadura é preciso desmontar o estado burquês e para começar a fazer isso é necessário acabar com o monopólio das comunicações que só serve para desinformar o grosso da população.
Quando se mistura, a investidura na mais alta corte do judiciário por meio de indicação politica, só nos resta chorar, ou como diz o Ciro Gomes espernear.
Estamos dominados por um poder legislativo que age em causa própria, e um Tribunal que dá a interpretação a causa destes legisladores. É um circulo vicioso, que só beneficia a Zelite. Estamos na contra mão do mundo, mais o que importa, se o que prevalece é a opinião do PIG.
Caro PHA
Enfim, os golpistas de 64 suspenderam as garantias fundamentais; perseguiram; seqüestraram; torturaram e assassinaram seus adversários “porque o Brasil corria o risco de sucumbir a uma ditadura comunista”.
É isso que os fascistas brasileiros consideram justificativa para o golpe e para a ditadura que se seguiu?
Perfeita a abordagem de Paulo Arantes do fato “ditadura militar”
Corrigindo: “em sua linguagem RUDE porém sincera”
Paulo Arantes, com lógica, raciocínio cristalino e fundamentação teórica irrepreensível, demonstra com sua erudição aquilo que o presidente Lula havia afirmado em sua linguagem rudo porém sincera:
“A culpa é da zelite”.
E é mesmo.
Disse tudo!!. Apenas se homiziou nas casernas, e ali aguardam,
quiçá com sofreguidão, de anti-patriotas, o momento de sairem
as ruas com tanques e a gendarmeria, para de novo violentarem
o povo. Aqui fora seus agentes travestidos de parlamentares,
continuam votandp a favor da submissão do país a exploração
pelo capital esterrno(USA/uk, e o interno via testas de ferro A ex-
ploração do trabalhador continua sob muitos disfarces. ACORDA!!
Não sei se os amigos leitores concordam, mas a questão sobre a “lei dos torturadores”, a impunidade e o índice crescente da violência são efeitos de um sistema judiciário dos piores existentes nesta terra. É um círculo vicioso: judiciário deficiente (ética, histórica, instrumental e moralmente) gera a sensação de impunidade, que gera a vontade de delinquir, que gera a violência e o crime, e assim por diante. A raiz está na gênesis elitista, desumana e antidemocrática do judiciário brasileiro que nunca foi justo. Ela é pronta para aplicar a lei, sobretudo contra o povo, o trabalhador e o pobre. Mas é ágil em beneficiar o capital, o “cheiroso”, o rico, o banqueiro…
Seu comentário foi lúcido e especialmente verdadeiro. Entendo que esta cultura atual ainda vai longe; porém, sempre se espera que hajam mais brasileiros capazes de modificar esta realidade.
… aê, fico aqui pensando: em Cuba, basta uma “abridinha”, pra surgirem uma série de falsos apologistas da democracia; todos, financiados no exterior/pensamento no exterior, tdo diverso da realidade cubana. Pregam e tentam demonstrar a virulência do regime cubano, de feitio anti-democrático. Ora, a vivência política em Cuba é a cabível e sem a qual não teriam acontecido os ganhos sociais e de justiça ocorridos. Engraçado: em Cuba vigora uma ditadura onde não se pratica a tortura; exceto em Guantanamo…
Uma luz, por Hanna Arendt:
“Visto que o fim da ação humana, distintamente dos produtos finais da fabricação, nunca pode ser previsto de maneira confiável, os meios utilizados para alcançar objetivos políticos são muito frequentemente de mais relevância para o mundo futuro do que os objetivos pretendidos.”
Essa eleição polarizada em dois candidatos conchavados vai ser um desastre pra democracia brasileira, realmente a ditadura está de volta, ou melhor, ela nunca saiu de cena, apenas ficou na retaguarda, o preço a pagar por este sistema medíocre, será dividido nos próximos quatro anos de qualquer um que se eleja.
Globo “45″ o PiG que ameaça a democracia brasileira.
———Votar no Zezinho é voltar à ditadura. ———–
Acordam BRASIL os golpistas tão se armando. Bye-bye aqui ñ.
A tortura e morte morte de Luiz Eduardo Luiz Pinheiro dos Santos no 9º Batalhão da PMs, exemplifica como agem os torturadores.
IMPUNIDADE!!! Está é a palavra chave. Nós engolimos a seco o fruto podre da ditadura até hoje. Senão, porque é que não vemos os colarinhos brancos nas nossas cadeias até hoje???? Porque é que uma rede de TV, com o GLoebbels, ataca impunemente de forma sórdida um ótimo governo como o de LULA e endeusa um sacripanta entreguista e lacaio como O FHC??? MEDO DA DEMOCRACIA!!! MEDO DA MASSA FEDORENTA, como dizem seus asseclas. Eles querem democracia sim, desde que continuem no poder “ad eternum”. É de vomitar…
“O BRASIL não passa na GLOBO – O BRASIL pode muito mais sem os PSDBobos”
Para concluir, com Arantes:
“Um primeiro regime de violência foi assim acionado num momento crucial da guerra contra a organização política das ‘pessoas comuns’, passando em seguir a lastrear as novas hierarquias sociais sem as quais não se reproduz o segundo regime de violência no qual ingressamos, um regime de acumulação sob dominação financeira marcado pela discricionariedade, pelo compadrio e pelo privilégio“.
Nesse ambiente pútrido, Arantes localiza:
“ … a armadura do nosso estado oligárquico de direito, estando em plena vigência o sublime instituto do habeas corpus, desde que as conexões sejam boas. A rigor, a guinada rentista do capital encontrou a casa arrumada pela ‘bagunça’ da ditadura”.
“O golpe (de 64 – PHA) agiu e fechou esse círculo, que hoje continua a rodar”.
… e para corroborar essa infausta e perene confluência, temos números de “guerra social” não declarada com seu preço cobrado em vítimas ao custo de vários milhares de jovens todos os anos.
Na verdade, não acabou a ditadura, como também não acabou o apartheid, a escravidão, as senzalas, as casas-grandes…
Desgraçadamente, sinto um querer esboçar discreto sorriso cada vez que um branco bacana é assassinado por nossa violência cotidiana…
O que fazer quando o principal orgão de justiça do paíz decide contra os direitos dos cidadão do Brasil.
A corte constitucional rasga a constituição defendê-la dos golpistas!
Caro PH! Seria possível a publicação do ensaio completo do autor aqui? Não que eu não pretenda comprar o livro! Agradeço desde já qualquer resolução!
Na renitente estética do ideal de tortura, os torturadores acabam de ganhar uma nova inspiração: “um deus do amor” a quem cultivar e adorar chamado Eros Gargantua!
Assisti, contristado, o voto do relator Eros Grau sobre a ADPF – 153, pelo indeferimento da ação, pelo canal da TV Justiça ??. O irônico que ele concluiu seu voto (extensíssimo) citando o poeta humanista/socialista, Mário Benedetti, que deve ter se contorcido na sepultura. Realmente, a ditadura ainda não acabou.
Escondam os jornais e revistas de FHC.
No Terra: O presidente Luiz Inácio da Silva emcabeça a lista dos 100 LÍDERES que mudaram o mundo em 2010. Revista TIME.
A impunidade que a Lei de Anistia promoveu se propaga nos dias atuais nas periferias e nos modernos caburões policiais. a tortura hj é uma indústria.