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1964: Cerra e a versão “bolinha de papel”

Jango só caiu porque não ouviu os conselhos do Cerra !
publicado 17/03/2014
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Como se sabe, o Padim Pade Cerra era o presidente da UNE em 1964.

Saiu do palanque do Comício da Central, ao lado de Jango, para a embaixada da Bolívia, dali para o Estádio Nacional do Chile, onde sobreviveu ao morticínio do Pinochet, e apareceu na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, onde tirou um diploma de Economista que não consegue exibir.

Singular, não, amigo navegante ?

Esses são alguns dos atributos que fazem dele “a elite da elite”, segundo o PiG (*) de São Paulo.

(Clique aqui para ler post com  a aula inaugural do professor Bercovici sobre as “reformas de base”).

Neste fim de semana, a Folha (**) de São Paulo, que teve destacado papel na logística dos torturadores de 1964, na seção Ilustríssima (sic), cede quatro páginas para um artigo do Padim: “As Entranhas do Golpe – o teatro de operações de 1964”.

Trata-se de um trecho editado (sic) de livro que o consagrado autor publicará em junho, pela Editora Record, de título “Cinquenta Anos Esta Noite”.

É a versão “bolinha de papel” do Golpe contra Jango.

Contém algumas fantasias típicas de quem confunde bolinha de papel com míssil balístico.

Ou, de quem sai do Comício da Central para liderar a Extrema Direita do pensamento político brasileiro, a direita homofóbica, entreguista, anti-aborto, neo-libelista (***), preconceituosa contra os nordestinos de São Paulo etc etc...

E suspeita de participar de alguns dos escândalos mais fulgurantes do tucanato de São Paulo: o trensalão.

O mais interessante do livro do Cerra será o que os leitores de Folha não conseguiram vislumbrar: a explicação de como saiu do lado do Jango para acabar onde acabou …

Vamos às fantasias, à bolinha de papel.

- Jango disse a ele e a mais ninguém que não chegaria ao fim do Governo;

- que, se Jango tivesse seguido sua instrução, não teria pedido o Estado de Sítio para enfrentar Lacerda e Ademar – e foi isso o que derrubou Jango (Jango retirou o pedido);

- Cerra se disporia a trair Jango porque não queria cair como “janguista”;

- Jango caiu porque não manteve um paulista como Ministro da Fazenda, Carvalho Pinto, tese que só o Cerra defende …;

- Jango caiu porque perdeu a confiança do empresariado, com a saída de Carvalho Pinto – empresariado esse que ele, Cerra, passou a cultivar, especialmente os donos do PiG (*);

- o Comício da Central foi uma “fantasia”, embora ele tivesse defendido a encampação das refinarias de petróleo e o projeto de Reforma Agrária...;

- a “besta fera”, o inimigo número um da sobrevivência de Jango era o Brizola, o maior dos radicais – tese que acompanhou os militares e a UDN;

- em nenhum momento Cerra questiona a hipocrisia das “marchadeiras” pela Família e a Propriedade – afinal, elas estão aí, em Higienópolis, até hoje;

-  outro motivo da queda de Jango foi nomear Amaury Kruel comandante do Exercito de São Paulo, o mesmo Kruel que Cerra tinha chamado de Golpista – um jenio !; Cerra, provavelmente, já sabia que Kruel ia trair Jango por seis malas de dólares.

- na hora em que botaram fogo na UNE que ele presidia, ele não estava lá. Mas estavam lá o Oduvaldo Vianna Filho e o Carlos Vereza. O Cerra, coitado, fugido, se sentiu “mortificado” com a invasão;

- e a resistência de Jango, o tal “dispositivo militar” ? “Apagara-se sem ruído, como uma bolha de sabão”, diz o notável memorialista.

Navalha

O “depoimento” do Cerra é uma tentativa mal dissimulada de cobrir o passado, com uma explicação que coincide, nos pontos cruciais, com a versão dos direitistas com que ele passou a conviver, e onde se inspira desde que foi recebido de braços abertos nos Estados Unidos.

Por exemplo.

Jango caiu porque era um despreparado.

Como diz o historialista dos múltiplos chapéus, Jango caiu porque se dedicava às pernas: de coristas e de cavalos.

Agora, se sabe: Jango caiu porque não seguiu a orientação de Cerra.

Em tempo: o citado historialista troca receitas de veneno com o Padim Pade Cerra nas madrugadas insones. Não surpreende que pensem o mesmo de Jango.

Em tempo2: não fosse a contumaz escassez de princípios - também intelectuais – se poderia dizer de Cerra o que Stendhal disse do jovem Fabrice, de “Cartuxa de Parma”, que esteve em Waterloo e não percebeu. Ou, como Machado, de Capitu, que o Cerra do aborto - no Chile pode - já estava no Comício da Central.

Em tempo3: será que o livro “Cinquenta Anos Esta Noite” explicará de que vive o Cerra ?

 




Paulo Henrique Amorim


(*) Em nenhuma democracia séria do mundo, jornais conservadores, de baixa qualidade técnica e até sensacionalistas, e uma única rede de televisão têm a importância que têm no Brasil. Eles se transformaram num partido político – o PiG, Partido da Imprensa Golpista.

(**) Folha é um jornal que não se deve deixar a avó ler, porque publica palavrões. Além disso, Folha é aquele jornal que entrevista Daniel Dantas DEPOIS de condenado e pergunta o que ele achou da investigação; da “ditabranda”; da ficha falsa da Dilma; que veste FHC com o manto de “bom caráter”, porque, depois de 18 anos, reconheceu um filho; que matou o Tuma e depois o ressuscitou; e que é o que é,  porque o dono é o que é; nos anos militares, a Folha emprestava carros de reportagem aos torturadores.

(***) “Neolibelê” é uma singela homenagem deste ansioso blogueiro aos neoliberais brasileiros. Ao mesmo tempo, um reconhecimento sincero ao papel que a “Libelu” trotskista desempenhou na formação de quadros conservadores (e golpistas) de inigualável tenacidade. A Urubóloga Miriam Leitão é o maior expoente brasileiro da Teologia Neolibelê.