Brasil

Você está aqui: Página Inicial / Brasil / Wanderley e o que impede a Democracia

Wanderley e o que impede a Democracia

Um desafio: como distribuir renda e evitar Golpes?
publicado 25/04/2017
Comments
Democracia.jpg

Se ele não explicar, ninguém mais explica...

O professor Wanderley Guilherme dos Santos acaba de lançar pela FGV Editora “A Democracia Impedida – o Brasil no Século XXI” - , seu 32º livro.

Uma obra magistral!

Que vai merecer, aqui, para estimular a curiosidade do amigo navegante, breve e incompleta resenha, com acréscimos do ansioso blogueiro que o autor não subscreveria em nenhuma hipótese... 

(As transcrições não são literais.)

Wanderley sustenta que, em democracias representativas, o número de interesses contrariados é potencialmente superior ao número de interesses atendidos.

Pior ainda: 

E que a instabilidade é o estado natural da Democracia.

E quanto mais heterogênea a sociedade e mais homogênea a classe política é maior o hiato entre a adesão à mecânica da Democracia (eleições) e o repúdio aos resultados.

As teses centrais (na modesta avaliação do autor da resenha) lançam um monumental desafio a governantes progressistas, ou candidatos a governantes progressistas.

Pois, não basta atender a interesses (dos pobres), por exemplo, porque os contrariados serão em maior número.

Isso gera inevitavelmente instabilidade, por exemplo, Golpes como o de 2016.

Ainda mais numa Democracia precariamente instalada em cima de uma sociedade heterogênea com uma classe política homogeneamente Golpista.

O desafio e o ceticismo de Wanderley não encontram resposta – nem amparo - na prática e nas ideias que cercam os candidatos progressistas – nem nas vítimas do Golpe de 2016. 

Isso significa que não pode haver Democracia representativa no Brasil?

Ou que a Democracia representativa é incompatível com o Capitalismo – como sustenta Wolfgang Streeck em seu também magistral “How Capitalism will end?”?

A leitura de “A Democracia Impedida” leva a acreditar que quem rasgou a Constituição no Golpe de 2016 foi aquele que Wanderley chama de Luis XIV, o relator da AP 470 (o mensalão do PT), o ministro Joaquim Barbosa, que proclamou: “a Constituição é o que o Supremo diz que é”, “La Constituition c'est moi!”.

Portanto, Barbosa deu o Golpe de 2016!

Porque ali se rasgou a Constituição de 1988 – e, rasgada a Constituição, depor a Dilma era uma questão de tempo. 

Wanderley chama o julgamento da AP 470 de “uma interpretação malévola, mal-intencionada” - de um “julgamento de exceção”.

Ele chama a atenção também para adaptação da teoria do “domínio do fato”, que Barbosa massacrou para condenar o José Dirceu sem provas.

(Aqui no Conversa Afiada se disse, irresponsavelmente, que o Ministro-relator-Presidente Barbosa pegou a teoria alemã do domínio do fato e travestiu-a de Carmen Miranda.)

Wanderley não deixa de registrar outro momento crucial nesse estupro do Direito e da Constituição: quando a Ministra Rosa Weber (provavelmente inspirada por seu auxiliar, na época, o notório Juiz Sergio Moro) anuncia que mandará Dirceu para a cadeia, mesmo sem provas, porque “a literatura me permite”!

Precisa desenhar?, perguntaria o ansioso blogueiro…

O livro aponta os limites da política dos Governos Lula e Dilma:

“A promoção econômica dos pobres e miseráveis nos dois governos Lula anestesiou o Governo e o publico para os riscos embutidos em todo o período de expansão da Economia”.

Ou seja, Lula e Dilma não se precaveram contra os majoritários interesses contrariados.

Os pobres traíram Dilma?

Não, diz Wanderley.

Como?

Se estavam “anestesiados”, responderia, irresponsavelmente, o ansioso blogueiro.

“O comando de todo o processo (do Golpe) esteve nas mãos de parlamentares com ou sem mandato”, diz Wanderley.

Observa o ansioso blogueiro que, segundo notícia não desmentida da Folha de S. Paulo, houve um café da manhã na casa do Presidente da Câmara, Eduardo Cunha com o Ministro do Supremo Gilmar Mendes (sem mandato… parlamentar… ) e o deputado Paulinho da Força, ou Pauzinho do Dantas,  para definir, com razoável antecedência,  as etapas do impeachment na Câmara.

Foi assim que Eva comeu a maçã!, diz o ansioso blogueiro.

Quem é o general Mourão de 2016?

Cunha?

E o general Golbery? Gilmar?

Para Wanderley, não houve uma conspiração - as operações eram decididas autonomamente, mas com coincidência de objetivos.

O Conversa Afiada concorda e acredita que o Jornal Nacional, todo dia, às 20h30, era o Farol dos Piratas: os corsários saíam cada um por si, autonomamente, guiados pelo objetivo comum: o Golpe, tomar a grana dos pobres

Às 20h30, o Farol dos Piratas se acendia na Globo Overseas Investment BV e dava o rumo diário aos bucaneiros.

Embora acentue que 2016 foi um “golpe parlamentar, Wanderley não menospreza o papel da Globo - “serial killer” de reputações - e do notório Sergio Moro, que segue “uma doutrina punitiva”. 

A Globo e Moro fazem parte dessa frota de corsários que, segundo o Conversa Afiada, toda noite esperava o farol se acender.

A dialética e a erudição de Wanderley se mostram afiadíssimas ao desmontar a “racionalidade” dos tais neolibelês  e sua crença na Teologia do “ajuste fiscal”.

Wanderley chama os economistas para a briga, na linguagem supostamente científica dos economistas.

Para Wanderley, “ajuste fiscal” tem cheiro de classe. Classe social...

Imperdível é a análise serena e educada que Wanderley faz do trabalho do físico Samuel Pessoa, economista de quinta que a Fel-lha promoveu a economista de quarta categoria.

Wanderley aponta a centralidade do “cocô industrializado das costas peruanas (de guano, dejetos de pássaros acumulados, ricos em nitrogênio, adubo natural) no pensamento neolibelês de Pessoa.

O cocô peruano é mais importante do que a construção da usina de Belo Monte, porque essa foi infectada pelo fedor do investimento estatal (a argumentação do professor Wanderley não é tão vulgar…)

(O Conversa Afiada sugere que o “consultor” Pessoa identifique quem o consulta no pé de seus inúmeros artigos no PiG, para que o leitor possa distinguir o que Pessoa diz para enobrecer o leitor do que é para enriquecer os que o consultam.)

Ah, diria o professor Wanderley, tem a corrupção!

Não vale a pena gastar muito tempo, aqui, com isso.

A denúncia de corrupção é muamba que a Direita usa contra a Esquerda desde Vargas.

Mudam – para pior – os Lacerda, os muambeiros.

Mas, a velhacaria é a mesma.

O livro foi escrito no segundo semestre do ano passado, antes das delações da Odebrecht.

Mas, já contém previsão funesta: 

"A violência já estava em marcha e Temer agiu para não perder o lugar. Pôs a coroa na cabeça antes que outros o fizessem, plantando o potencial abacaxi a ser descascado pelo Tribunal Superior Eleitoral (...) Na festa de licenciosidade jurídica contemporânea não faltarão os constitucionalistas a redigir doutas interpretações de antigos casos, ou nunca existidos, dando total garantia de lisura à excepcionalidade"

No 33º  livro, que deve estar sendo escrito, se saberá se as delações da Odebrecht mudaram a percepção do autor sobre o Golpe, sobre o futuro do PT e sobre o futuro do Presidente Lula.

E ele poderá responder a angustiante pergunta:

Com o Brexit e o esfacelamento do Labour; Trump; o óbito do Partido Socialista na França nessa eleição de 23/IV; o auto-flagelo do Podemos na Espanha e do Syriza na Grécia; a 498ª crise do Peronismo argentino; e no Brasil… - a Esquerda tem futuro? 

Se o professor Wanderley não responder, ninguém responderá.

Porque ninguém conhece o Século XXI como ele!

PHA