Saiu na Carta Capital:
Eles têm o direito de saber
por Matheus Pichonelli
Há uma pergunta recorrente ouvida por Maria durante sua estadia forçada em Buenos Aires em “O Dia Em Que Eu Não Nasci”, filme do diretor Florian Cossen que acaba de entrar em cartaz em São Paulo. “Lembra-se?”, perguntam tia, tio e amigos sobre episódios da infância da personagem interpretada por Jéssica Schwarz. Um passado que ela nem sonhava que existia.
Maria se esforça, mas não se lembra. Nadadora alemã, ela faz uma conexão na capital argentina durante uma viagem rumo a Santiago, no Chile, quando perde o voo e se vê obrigada a estender sua passagem pela cidade. Ainda no aeroporto, ela ouve uma mulher ao seu lado ninar o filho com uma canção em espanhol. Pode parecer um detalhe. Mas o som do que acontece ao lado só é captado após retirar os fones do iPod dos ouvidos. Quase no mesmo instante, a música transporta Maria a algum canto da primeira infância que a leva a uma crise de choro que, a princípio, não entende – como era possível saber de cor a letra de uma música numa linguagem que ela não domina?
Essa é apenas uma das muitas perguntas que a levam a permanecer na cidade até começar a desvendar o mistério: Maria, na verdade, não é alemã, mas uma argentina cujos pais desapareceram durante a mais sangrenta ditadura da história do País.
Assista ao trailer:
A partir de então, uma série de questionamentos passa a ser levantada: quem são seus verdadeiros pais? Como viviam? Quem é sua verdadeira família? Como foi parar na Alemanha? Como os pais adotivos entraram na história?
A passagem por Buenos Aires, que mudaria pra sempre sua vida (ou a antiga projeção de vida) a leva a conhecer a família dos verdadeiros pais, e parte de uma infância que desconhece. Numa casa simples de subúrbio, caixas com pertences, áudios e fotos são guardadas em memória de uma sobrinha que desaparecera nos anos 1970, na mesma época em que os pais foram sequestrados, e de quem nunca mais se teve notícias. Os tios que sobreviveram à ditadura contam a ela detalhes sobre sua vida anterior: os brinquedos, músicas e lugares favoritos. A cada episódio, Maria é perguntada: “Lembra-se?”.
Mas ela não se lembra. Não se lembra porque uma parte de seu passado foi simplesmente decapitada. E o passado que pensava possuir já não lhe pertence – pior: as pessoas em quem confiou a proteção, e com quem conviveu durante toda a vida, não são nem sombra do que imaginou que fossem um dia. Numa das mais comoventes cenas, Maria ouve a fita de uma música feita para ela no dia de seu aniversário. É quando reconhece sua voz ao fundo, cantando com os pais que foram arrancados dela e deletados de sua memória.
Ao partir de um drama pessoal, Cossen realiza uma mostra de como discussões históricas recentes, encaminhadas a duras penas no país vizinho (e recém-inauguradas no Brasil), não se limitam apenas a questões como “revanchismo” ou “legalidade” – expressões que fazem o leitor comum (que não lutou nem conhece quem tenha lutado, de alguma forma, durante o regime militar) a mudar de página toda vez que lê algo em referência à chamada comissão da verdade, o grupo responsável por investigar as atrocidades ocorridas no Brasil ao longo da ditadura.
Duas cenas do filme mostram o quanto a ignorância sobre o próprio passado de um país impede famílias estraçalhadas por tragédias políticas de entender os enredos das próprias origens e destinos. Numa dessas cenas, Maria se depara com a reação do pai adotivo, que viaja às pressas à Argentina para tentar demovê-la da ideia de se reencontrar com a verdade que ele ajudou a corromper. O pai, símbolo do suporte civil da tragédia militar, argumenta que não faria diferença, para ela e a família dos verdadeiros pais, conhecerem, tantos anos depois, as origens dos fatos. No que ela responde: “Eles têm o direito de saber.”
Em outra cena, Maria convida um policial portenho, com quem faz amizade, a ajudá-la no diálogo com a verdadeira família – já que ele é o único personagem do enredo que fala alemão. O policial, sem disfarçar a vergonha, diz que não seria bem recebido por uma família de sobreviventes da ditadura em razão de suas ligações com os militares. Só aceita a missão com a promessa de que sua identidade não seja revelada: seu principal medo era que os familiares (“essa gente”, na descrição dele) descobrissem que era filho de um militar que havia atuado durante o regime. Maria, então, pergunta se o pai do amigo também havia torturado e matado, e ele responde que não tem a menor ideia. “Não quero saber de coisas que me levem a odiar meu pai”, justifica ele.
Nada poderia ser mais emblemático sobre o receio de se abrir a caixa de Pandora que nos regimes militares latinos, patrocinados pelo governo americano, deixou como saldo milhares de mortos, e milhares de famílias sem notícias de seus filhos, netos, sobrinhos, pais, amigos e irmãos.
Não por acaso, o filme passa reto pelos principais cartões postais da capital argentina: a elegância da Recoleta, o luxo do Puerto Madero, o charme do Caminito. A câmera, o tempo todo, fixa-se no interior de casas e estabelecimentos (como o hotel que a abriga) de paredes sujas e descascadas, ou no caos das ruas que a cerca – como se o diretor estivesse mais interessado no intestino do país que retrata, e não nos discursos oficiais e envernizados da história de um período sombrio desenterrado.
“Mas no Brasil vivemos uma ditadura moderada. Na Argentina e no Chile mataram aos milhares, e aqui, às centenas”, argumentam, num notável exercício de preguiça mental, os que se opõe à revelação dos fatos.
“O Dia Em Que Eu Não Nasci” é uma resposta dada em boa hora, num momento em que, no Brasil, há dúvidas pertinentes sobre a capacidade de a Comissão da Verdade trazer a verdade à tona. O longa faz lembrar que crime é sempre crime – seja cometido às milhares ou às centenas – e que, sem prejuízo dos números, não há documento (nem filme) que mensure a dimensão da dor de não saber de onde viemos nem para onde vamos. E olha que, nesse quesito, os argentinos estão a anos luz da disposição brasileira de arrebentar, de forma definitivamente, os seus próprios cadeados e porões.
Matheus Pichonelli: Formado em jornalismo e ciências sociais, é subeditor do site e repórter da revista CartaCapital desde maio de 2011. Escreve sobre política nacional, cinema e sociedade. Foi repórter do jornal Folha de S.Paulo e do portal iG. Em 2005, publicou o livro de contos ‘Diáspora’.
Clique aqui para ler “Cumpra-se ! A decisão da OEA contra a Anistia”.




da vontade de chorar!!!!!!!!
Grupos que pegam em armas para derrubar governos eleitos, democraticamente, fazendo uso da força, da tortura e de “desaparecimentos”, tem mais é que serem julgados por crime contra a humanidade.
Só não podemos esquecer que os militares foram o instrumento do golpe e que os gestores, também, tem que responder (membros da elite, donos de mídia, empresários, ala da igreja, políticos da direita raivosa, etc)
O Cinema argentino é muito bom.Los hermanos superaram seus dias de chumbo,passaram a limpo e conseguem produzir filmes emocionantes sobre o tema.São um povo culto, tanto quanto guerreiro.
Todos choramos nossas dores…Se os tais esquerdistas mataram tanta gente;pq é o outro lado q n quer apuração?!
Os “esquerdistas que mataram tanta gente” já sofreram punição. São os corpos deles que muitas mães ainda buscam.
Não foram todos os militares. Muitos pagaram com suas vidas por não apoiarem os golpistas. Mas o pior é que não se criou qualquer mecanismo de defesa institucional contra um novo golpe. Continuamos recebendo convocações para reuniões contra o “governo corrupto”, convivemos com uma mídia golpista, com nichos de militares golpistas, com empresários e uma parte da classe angustiada por não terem conseguido ainda reunir as condições para um novo golpe.
Argentina tem vergonha na cara.
Lá os velhacos comem o pão que eles mesmo amassaram.
Para Jeferson-Natal-RN:
É isso mesmo, a relação dos 50 mortos é uma farsa. Não foram assassinados pela esqerda. Pode-se falar com eles a qualquer momento. Basta ir a um centro espírita…
OBA! Vou ver! Logo , logo as produções Argentinas, pela cabeça dos diretores de lá, sobrepujarão ás brasileiras. Por aqui só novela do SBT ousa tocar no assunto “anos de Chumbo”.
Viva Argentina!
Se esta Comissão conseguir contar nem que seja parte dessa história, mas a VERDADE, já está Bom demais pois no Brasil tudo é mentira, quando não é mentirosa o ângulo pela qual é contada esconde o sofrimento do povo e o chicote das elites. A melhor punição é a VERDADE.
Eu já acho que quem ultrapassou o limite do RADICALISMO foi quem PEGOU ARMAS para derrubar um regime que era LEGÍTIMO, conquistado NAS URNAS, com as regras impostas pela própria direita. E depois, vem reclamar que o lado oposto não pode radicalizar, depois de a direita ter radicalizado? Ora, pois, pois.
Vamos ao cinema.
Vou já já vê-lo!
Imperdível!
Comovente. O filme chega mesmo em boa hora. Não existe crime mais repulsivo que o cometido pelo Estado quando este usa o seu aparato para impor, aos cidadãos, o pensamento único, seja ele qual for.
Boa matéria. Precisamos compartilhar (e traduzir o alemão)
Todos nós, temos o direito à verdade. Abaixo a Lei da Anistia!
Bom e necessário filme.
Seria muito bom também assistir a algum sobre os filhos dos civis assassinados pela esquerda radical, e que não puderam ser criados e educados por seus pais…
A honra não está simplesmente em morrer em ação. Ela está em morrer honrosamente por algo grandioso e por uma causa que abrigue a vida e os destinos de muitos; e não na defesa de uns poucos, que é o que faz aqueles morrerem guiados na defesa e no resguardo de uma ordem que só atende a interesses desses poucos, e que, sequer, seriam os seus.
Eu queria saber quais foram também.Pq até hj não encontro nenhum escrito sobre família torturada ou morta pela esquerda
Ou vc não sabe ler ou não enxerga ou não sabe da existência do google, ou as três coisas juntas. Vou facilitar seu trabalho; vá ao endereço http://www.brasilwiki.com.br/noticia.php?id_noticia=19941.Ali está uma relação com 50 pessoas mortas por grupos esquerdistas. Divirta-se!!!!
E você ainda confia em documentos escritos por um Estado militar criminoso? É como respaldar toda a documentação Nazista sobre a “raça ariana superior”.
Luta-se por uma causa, não contra um povo. Os militares juntos com alguns civis metidos a cheirosos, usaram o estado e suas armas contra o povo.
Civis que derrubaram com armas, um governo eleito pelo povo, não teem do que reclamar. A verdade já!
Essa historia SEMPRE é contada à MANEIRA dos que apoiaram e apoiam
a ditadura de 1964 a 198…
Que só surgiu depois de 1968, quando as manifestações democráticas contra o regime foram abolidas pelo AI-5.