Santayana sobre o “Brasil Maior” e os mais fracos

Sócrates (E) a Platão: o Estado é para defender os débeis
O Conversa Afiada publica artigo de Mauro Santayana, extraído do JB online:
A desoneração e os trabalhadores
Mauro Santayana
A passeata convocada para hoje em São Paulo, por algumas das principais entidades sindicais do país, e o propósito, anunciado ontem pelo governo, de desonerar a folha de pagamento de alguns setores industriais, não nos remetem a Marx e a seus discípulos, mas nos fazem retornar a Platão. No mais político de seus Diálogos, o de Górgias, ele reconstitui – ou cria - discussão entre Sócrates, Górgias, Querefonte, Polo e Calicles. Sócrates vence, e convence, ao afirmar que a melhor forma de viver é a de praticar a justiça, além de todas as outras virtudes, e arrasa seu oponente, ao afirmar que de nada vale a argumentação de Calicles de que o Estado existe, e deve existir, em favor dos poderosos – e contra os débeis. O jovem e rico contendor do filósofo chega a citar Pindaro, em seu verso conhecido, segundo o qual a força faz o direito. A isso se opõe Sócrates, reclamando o papel do Estado como garantidor da justiça, mediante as leis. Enfim, o Estado só é legítimo quando protege os débeis.
É interessante a posição de certos empresários, ao reclamar contra os direitos trabalhistas. Quando a economia vai mal, eles se queixam, e argumentam que a flexibilização das leis do trabalho favorece o aumento do nível de emprego; quando a economia vai bem, o que ocorre agora, alegam que não conseguem competir com a importação de bens industriais, a não ser com o sacrifício dos trabalhadores. Ora, para alguns patrões, nada melhor do que uma sociedade econômica sem salários, e é o que buscam, na automação, a cada dia maior, dos processos industriais. Ainda agora, uma empresa de Taiwan anuncia a produção de um milhão de robôs para a indústria da China. Bem argumentam os que consideram a sociedade industrial contemporânea a mais injusta de quantas houve na História.
Como não pode haver produção sem consumo, nem consumo sem salários, o aumento da desigualdade leva a crises econômicas profundas, como mostram os exemplos, de 1929 aos nossos dias.
As medidas anunciadas ontem pelo governo em seu conjunto são necessárias. A preferência pela compra de produtos e serviços nacionais pelo Estado é boa providência, e melhor seria se, como produtos nacionais, só fossem considerados os procedentes de firmas realmente brasileiras, e não dentro da latitude imposta pelas emendas constitucionais do governo neoliberal de Fernando Henrique. Hoje, qualquer empresa, de capital externo, constituída no Brasil, ou adquirida de brasileiros, é considerada nacional. É um bom começo, embora parcela importante do que economizarmos com a redução das importações venha a ser consumida na remessa de lucros ao exterior pelas multinacionais. Esse primeiro passo, ao que parece, será seguido de outros. Conforme disse Mantega, é preciso proteger os produtores brasileiros contra os aventureiros que vêm de fora.
Apesar de tudo isso, os reais produtores, que são os que trabalham no pátio das fábricas, buscam, como é de seu direito, e de justiça, negociar com ganho real os acordos anuais de salários. Lutam também pela redução da jornada de trabalho, pelo fim do fator previdenciário, e pela regulamentação da terceirização, esse instrumento impiedoso de compra e venda da força e inteligência do trabalho – com lucros espantosos. Daí a passeata anunciada para hoje em São Paulo.
O mundo vive momento novo, dentro da velha injustiça que, pelo que vemos, já era objeto das especulações de Platão. Como a injustiça é o resultado da insensatez, os congressistas norte-americanos não foram assistidos da razão, ao debitar aos pobres a espantosa dívida do país. Não foram os pobres que gastaram as centenas de bilhões de dólares nas aventuras militares do Oriente Médio, que se somam às cifras inimagináveis consumidas em outras expedições de saqueio pelo mundo a fora.
E por falar em aventuras militares, convém ler com atenção o artigo do almirante Mário César Flores, ontem publicado em “ O Estado de São Paulo” sobre a pouca percepção que os brasileiros têm da importância e necessidade de forças apropriadas para a defesa da soberania nacional. As Forças Armadas devem ser suficientemente poderosas a fim de dissuadir eventuais agressores à nossa soberania geográfica e política. Não temos cuidado de erguer e solidificar os pilares de nossa liberdade e segurança no mundo. A educação elementar é desdenhada. Proliferam, graças ao liberalismo oficial, universidades privadas sem qualidade, autorizadas a explorar o sonho dos pobres. Não conseguimos assegurar saúde pública universal de qualidade, e não cuidamos bem dos homens aos quais incumbe a defesa do país.
E uma boa notícia. Ao assegurar a liberdade de trabalho para os músicos, contra a filiação compulsória à Ordem dos Músicos do Brasil, o STF dá mais um passo contra a praga do corporativismo, em favor da plena liberdade de trabalho e de expressão cultural dos cidadãos, conforme os princípios basilares da democracia republicana.
Nós nos escondermos. Hobbes, explica.
Platão? Marx?
Que tal uma análise sob a ótica:
A Genealogia da Moral, de Nietzsche; hein?
Nem vale a pena; pra quê?
Afinal, Platão e Marx; são mais aprazíveis para ambos: aos poderosos e aos incautos.
Pouco importa; não há como nos esconder de O Martelo!
É muito bom ler mais um excelente artigo do Santayana e acima de tudo, saber que tantas pessoas também o admiram, a julgar pelos comentários sensatos acima. Valeu pessoal, pois o senso crítico anda cada vez mais escasso. E obrigada PHA pelo Conversa Afiada existir!
Como nao pode haver poroduçao sem consumo,nem consumo sem salarios,o aumento da desigualdade leva a crises econômicas profundas, como a de 1929 e a ultima de 2008. mas parece que a maioria dos governos neoliberais do mundo inteiro prestaram o prestao a atençao nisso.
Santayana nos ajuda a pensar. Obrigado, professor!
Interessante texto. O penúltimo parágrafo sintetiza bem alguns dos desafios que nosso país ainda precisa enfrentar e nos serve de guia para conter um otimismo, as vezes, cego.
Patriota nacionalista Santayana, muito obrigado por mais esse artigo. Uma das primeiras iniciativas do Governo FHC-Serra foi acabar com a definição constitucional de empresa nacional. Só é considerada americana as empresa com 75% de capital em mãos de cidadãos americanos. Na China só pode ser remetido ao exterior parte dos dólares gerados. Quem não gera dólares não pode remete-los. Nos Estados Unidos empresas consideradas estratégicas não podem ser vendidas para não americanos. Não há país rico que não seja nacionalista.
Grande Santayana.Grande!É muito bom saber a opinião de um profissional que tem embasamento para fazer suas análises.Não fica no trololó vazio do achismo de muitos por ai.A gente aprende muito com ele.Valeu Paulinho!
o neoliberalismo é uma farsa inventada por gananciosos que desejavam o poder dos antigos reis.
Santayana é craque e ponto.
Sempre objetivo,lúcido e pragmático, o grande Santayana, Matou a pau.
O que tenho aprendido com Santayana não é brincadeira. Obrigada a ele e ao PHA, por nos presentear com textos maravilhosos!
Mauro voce tambem é o cara, bravo!
Mauro é um dos maiores intelectuais que a nossa História já pode ter! Nunca antes fui tão orgulhoso desse período da nossa História. E o melhor é que estou vivendo esse momento!
Quando vejo Santa, anunciado em um post, deixo por último para saboreá-lo, mas sempre na dúvida, desta vez ele não vai se superar mais ainda(besteira minha), Santayana é a própria sublimação, que temos que deliciar em capítulos; alimentar dar condições de trabalho a qualquer brasileiro é assegurar, um país justo, portanto mais avaliado, com mais valor, donde aí quem quer que seja é um ótimo soldado, a defender a pátria, pois bem instruído e bem alimentado, está preparado para a defesa do país bem como sua lida diária, portanto estamos desde 2002, formando Patriotas, pessoas que começam a gostar do Brasil, mesmo que seu time(taime-tempo) já tenha passado, e que contribuiu com muito suor e conscientização, para tanto esta é a receita contemporânea não bélica, de Soberania Nacional, porém Mortal aos inimigos da Pátria…maumau
Excelente artigo de jornal como a muito tempo não temos mais para ler e refletir, uma fala em direção do equilíbrio e razão.
Hoje o nosso querido e amado Brasil esta a um passo de seu grande e magnifico destino ser uma nação rica, poderosa, justa e sadia em seus fundamentos para o progresso, desenvolvimento, crescimento e evolução. Ainda temos muito caminho e a distância não deve nos meter medo ou amedrontar.
Os inimigos tanto interno como externo ainda não foi derrotado por completo e isso se dará com o tempo. Fomos levado a aceitar as imposições de fora para fazer experiências suicidas e o exemplo é a Grécia, Espanha, Itália, Irlanda e Portugal e quem mais estiver em baixo da arapuca planejada e arquitetada pelo EUA. O EUA vai penar bastante e seu fim de império vai se esfacelar com os anos que virão. Os inimigos interno do nosso desenvolvimento tem nome e enderenço é conhecido como Neo libertinagem econômica. PHA essa matéria de jornal nos brindou com esclarecimento a suas também, como todos os outros jornalistas lúcidos de blogs o faz! Agradecido!
Bem que nossa Presidenta poderia incluir no conselho de pensantes, esse jornalista Mauro Santayana, pela sua capacidade de perceber o ruma da história e pelo seu nacionalismo. Seria muito bom para o país.
faltas mesmo é acabar com a prova da oab
Belo e lúcido texto, histórico e conteporâneo. Direto no coração de uma elite brasileira que insiste em pensar o Brasil de poucos e pra poucos. Como precisamos do Estado e da Estadista Dilma…
Viva Lula, viva Dilma,
Viva Santayan e por que não,
Viva PHA (que nos proporciona estas leituras…)
Posso estar enganado, mas a obra-prima que ilustra este post, representa Platão (esquerda) e Aristóteles (direita) divagando, um sobre a existência do mundo das ideias e o outro sobre o mundo material, e não Sócrates e Platão.
Mais uma ótima matéria publicada no Conversa Afiada.
Correção: na figura estão em destaque Platão (E) e Aristóteles (D).
Mauro, parabens!!! Mais um brilhante e lucido texto. Sua preocupacao com os trabalhadores e justa. Dilma e sua sensatez vao fazer justica ao apelos dos trabalhadores ,que sao a sua razao maior. Acredito na sensibilidade e senso de justica de Dilma. Os trabalhadores tem o direito legitimo de se manifestar , mas deveriam procurar mais dialogar. Dilma e trabalhista. Eles deveriam nao se esquecer disso. Dilma esta ao lado do povo, dos trabalhadores.
A criação e regulamentação da profissão de músico foi uma conquista revolucionária. A intervenção da Ditadura na OMB, a partir dos 60 e que perdura até hoje, é o pano de fundo que não se resolveu. Voltar ao amadorismo e esquecer a História não é a solução para as relações de trabalho entre músicos e empresários/produtores.
Se estivesse a minha altura poder avaliar , eu diria que o texto é perfeito. Obrigado Santo
Graças a Deus novos tempos no Brasil. Aos poucos o ranço da corrupção, do favorecimento ao Grupo Neoliberal Mundial (pois eles existem e têm um comando central) vai acabando e dando lugar ao povo, que devagar vai saindo da marginalidade para dias melhores, apesar dos demotucanos, do PIG e seu Jornal Nacional?, da classe média despolitizada e da elite paulista.
Obrigada por esse texto Santayana.
Marcio, “proliferam, graças ao liberalismo oficial, universidades privadas sem qualidade, autorizadas a explorar o sonho dos pobres”.. esse é o caso dos cursos de Direito, daí a importância do exame da OAB
Como dizia Confucio, o estado foi feito para o homem e não o contrário.
Esse “velhinho” é fantástico. Santayana sempre tem algo com conteúdo a dizer (escrever). Pra mim, leitura obrigatória.
Já naquela época havia o neoliberalismo.Sócrates era perigoso demais.Proteger os fracos contra a ganância de poucos ,é um pensamento combatido no nossos dias.Excelente o texto,como sempre.Vamos Brasil,procurar a justiça de forma sistemática.E retornar ao conceito, do homem como centro das ações.O neoliberalismo, foi só um momento de escapa marcha da humanidade.
A “praga do corporativismo” prejudica toda a nação e pode ser facilmente identificada no Judiciário (inclusive na Justiça do Trabalho, que é contra qualquer flexibilização trabalhista), nas concessionárias de transporte público (que impedem o avanço da mobilidade urbana sob trilhos nas nossas grandes cidades), nas grandes transportadores (que “baniram” as ferrovias do nosso pais), no Legislativo (que quer aumentar o nº de vereadores no pais) e por vai …
Corretíssimo, caro Celso Reis, só não esqueça da maior praga corporativista do Brasil, qual seja a obrigatoriedade de levar um advogado a tiracolo para falar por você perante um juiz. Um absurdo dessa pseudo-democracia representativa.
O Mauro Santayana talvez seja o único remanescente da grande safra de excelentes jornalistas que nos brindavam com suas postagens ricas em sabedoria e em experiência nas décadas passadas. Que saudades e que o Mestre continue assim por muitos e muitos anos. Parabéns. Abs, Riri.
Um almirante falando isso, é um tiro de misericórdia, de canhão, da fragata Independência, no neo-liberalismo dos neo-fascistas tucanalhas do DEMo!
Santayana, muito obrigado.
José Ivan Mayer de Aquino
Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida
O STF segue sendo INCOERENTE. Se ao músico não deve se exigir filiação à OMB ( e eu concordo com essa posição) por que com os advogados é diferente? Abaixo todo tipo de corporativismo que na maioria das vezes é pretexto para injustiças e fisiologismos. Em tempo: não sou estudante nem pretendo advogar.
Concordo, Márcio.
Esta obrigatoriedade de registro na oab para poder advogar é inconstitucional.
Este registro poderia ser usado como um “marketing”: Fula no de tal, advogado, filiado à aob…”.
Nunca como uma obrigatoriedade.
Abraços