Redação Conversa Afiada

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RBS: A censura dissimulada

    Publicado em 12/07/2011
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O Conversa Afiada reproduz artigo do professor Venício A. de Lima, publicado no Observatório da Imprensa:

A censura dissimulada


Por Venício A. de Lima

Tomei conhecimento recentemente da sentença proferida em 21 de março passado pelo juiz Diógenes Marcelino Teixeira, da Terceira Vara Federal de Florianópolis, na ação civil pública (ACP) proposta pelo Ministério Público Federal de Santa Catarina (MPF/SC), em janeiro de 2009, com o objetivo de (a) anular a aquisição do jornal A Notícia, de Joinville; (b) reduzir o número de emissoras de televisão do Grupo RBS aos limites permitidos pelo decreto-lei 236 de 1967; e (c) estabelecer percentuais da programação local da radiodifusão televisiva, produzida e expressando a cultura de Santa Catarina nos termos do inciso III do artigo 221 da Constituição Federal (ver processo nº 2008.72.00.014043-5, disponível aqui).


O senhor juiz julgou improcedente o pedido e decretou a extinção do processo (ver aqui).


O que está em jogo



Tratei da importância desta ACP em mais de uma ocasião (ver, por exemplo, “Propriedade cruzada – Interesses explicitados“). Nota pública do MPF/SC sobre a ACP, à época, afirmava:

“…o grupo (RBS) detém no estado o controle de seis emissoras de televisão; os jornais Diário Catarinense, Hora de Santa Catarina, Jornal de Santa Catarina e, recentemente, o jornal A Notícia; além de três emissoras de rádio. O pool de emissoras e jornais utiliza o nome fantasia Grupo RBS. Com o conhecimento expresso do Ministério das Comunicações, as empresas são registradas em nome de diferentes pessoas da mesma família com o objetivo de não ultrapassar o limite estabelecido em lei. Para o MPF, a situação de oligopólio é clara, em que um único grupo econômico possui quase a total hegemonia das comunicações no estado. Por isso, a ação discute questões como a necessidade de pluralidade dos meios de comunicação social para garantir o direito de informação e expressão; e a manutenção da livre concorrência e da liberdade econômica, ameaçadas por práticas oligopolistas” (íntegra aqui).


A sentença e suas razões



Embora a sentença não constitua, de fato, uma surpresa, vale o registro – de uma perspectiva não jurídica – pelo que ela representa para os moradores de Santa Catarina e, sobretudo, pelo padrão histórico de censura dissimulada que ela perpetua.


Em relação à compra do jornal A Notícia, o juiz afirmou:

“…compulsando o teor do processo administrativo que examinou o ato de concentração entre as empresas Zero Hora Editora Jornalística S/A e A Notícia S/A Empresa Jornalística, que resultou na autorização para a combatida alienação do controle acionário da última, vejo que não há qualquer irregularidade a ser proclamada, porquanto não se descortinou na ocasião qualquer infração à ordem econômica, com a formação, por exemplo, de oligopólio. Com efeito, vejo que no âmbito do CADE foi exaustivamente aferida a circulação de cada um dos periódicos editados (ou não) no Estado de Santa Catarina, com as respectivas participações no mercado em termos percentuais por regiões delimitadas, verificando-se claramente que o mercado é “disputado” por vários jornais, filiados ou não ao grupo RBS (…). Resta claro que não há a formação de oligopólio (…).


Em relação ao número de emissoras de televisão controladas pelo Grupo RBS em Santa Catariana, diz a sentença:

“…não restou cabalmente demonstrado nos autos ofensa à legislação que proíbe a concessão de mais de duas emissoras de radiodifusão à mesma empresa, porquanto como bem colocado na contestação da União, não houve a concessão de serviços de radiodifusão à “família Sirotsky”, e sim a pessoas jurídicas distintas, com quadro societário diverso, [sublinhado no original] o que se comprova mediante o exame dos respectivos estatutos sociais juntados aos autos”.


Em relação aos percentuais de programação local da radiodifusão televisiva conforme o artigo 221 da CF, o juiz considerou que:

“…o referido artigo 221 nunca foi regulamentado, de maneira que não há como impor à rés obrigação ainda não positivada”.


Omissão escandalosa



A Justiça Federal de Santa Catarina…

(1) ao considerar que a compra do A Notícia não constitui “qualquer infração à ordem econômica, com a formação, por exemplo, de oligopólio”, acatando, sem mais, a decisão administrativa do CADE;

(2) ao decidir que “não houve a concessão de serviços de radiodifusão à ‘família Sirotsky’, e sim a pessoas jurídicas distintas, com quadro societário diverso”, mesmo sendo de conhecimento público que as pessoas jurídicas “distintas” que controlam mais de duas emissoras de televisão em Santa Catarina são, de fato, vinculadas ao mesmo grupo familiar; e

(3) ao deixar de cumprir o que manda o artigo 221 da CF por falta de regulação;

…contribui para perpetuar uma situação onde apenas alguns poucos grupos têm direito a voz enquanto a imensa maioria da população permanece sem a possibilidade de exercer sua liberdade de expressão no espaço público.


Essa é, na verdade, uma forma de censura dissimulada que vem sendo praticada e confirmada no nosso país não só por sentenças do Judiciário, mas também por decisões administrativas do Cade e pela escandalosa omissão do Poder Legislativo que, 22 anos depois, não regulamentou a maioria dos artigos do capítulo da Comunicação Social da Constituição.


A lição que se deve tirar de mais esse episódio é que, apesar da proibição expressa no Artigo 220 da Constituição, a censura continua sim a ser praticada entre nós. Uma censura dissimulada, que passa despercebida na maioria das vezes, mas que perpetua aquilo que desde o século 17 o padre Antônio Vieira já considerava “a maior ocasião de nossos males”, isto é, “o pior acidente que teve o Brasil em sua enfermidade foi o tolher-se-lhe a fala”.

***

[Venício A. de Lima é professor titular da UnB (aposentado) e autor, dentre outros, de Regulação das Comunicações – História, poder e direitos, Editora Paulus, 2011]

 

 

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  • Hélio Sparrremberger disse:

    O vale do rio Tijucas pede socorro, estamos proibidos de arborizar nosas cidades, pois os Municípios dessa região estão com as calçadas estreitas, nesse lugar os administradores não se preocupam com a humanização das cidades, eles são tão atrasados que não pensam no conforto do pedestre, cadeirante que aliás os cadeirantes nem conseguem andar nas calçadas, pois não há espaço, são cidades tristes e deprimentes. Socorro ajudem-nos.

  • Juliano disse:

    O mais engraçado é que não é a Globo que pressiona o judiciário, mas o judiciário que se faz pequeno perante a Globo.

  • Marcos disse:

    Os gaúchos conhecem bem o estilo RBS:
    1. Os gaúchos devem pensar o que a “Famiglia Sirostky” quer;
    2. O Grupo RBS é importante para o desenvolvimento do RS, embora ninguém conheça um único ato que tenha ajudado o RS;
    3. Os Sirotsky sempre elegem um comunicador para um cargo político (vide o Governado Brito, o radialista Sérgio Zambiasi e agora a jornalista Ana Amélia Lemos), para defender seus interesses;
    4. O Grupo RBS dá ampla margem para as opiniões em contrário, desde que essas opiniões não a contrariem;
    5. O Grupo RBS é o único que cobre todo o Estado do RS e não aceita concorrência, praticando um monopólio disfarçado dos meios de comunicação.
    6. Os partidos políticos devem seguir a cartilha da RBS. Aí de quem desafinar. Que o diga o PT gaúcho.
    Esse é o estilo da RBS.

  • Não me surpreede a decisão desse juízinho (talvez fosse melhor a espressão “árbitro de leis”)…toda essa corja está ligada para a manutenção de seus privilégio e status quod…Na constituição diz que a imprensa (TV, rádio e etc) deve estar à serviço da população (em torno de 80 ou 90% de seu tempo se não me engano.). contudo, o que vemos são a defesa de interesses privados. o que está mostrando ao povo o outro lado da notícia são as midias independentes (como esse belo bloq)…esperamos que as coisas melhorem com o tempo e a proliferação da banda larga para o povo saber o outro lado da moeda do interesse das minorias… Eu sou gaúcho, dizem que nosso Estado é o mais politrizado da país…hahahaha..lendo jornalecos como a zero hora e o diário gaúcho (grupo RBS) são um bando de alienados do inferno!!! lêem o que a familia Sirotsky quer! masi sso está mudando… Amém!

  • Vivian Agnoletto disse:

    Quem dera,dia desses,os Smurdockys daqui,também sejam desmascarados! Destróem reputações,apóiam governos corruptos,manipulam fatos conforme seus interesses.Nada de novo… a mesma tática empregada pelos velhos e conhecidos piguianos. Isso acarreta em um retrocesso sem precedentes.O treinamento intensivo é não admitir o contraponto e acabar com o senso crítico.Povo mal informado é muito mais fácil de ser manipulado.Uma vergonha. E pensar que poderiam ser grandes e fazer a diferença…Fazer o quê? Cada um escreve a sua história e ela reserva uma página negra para eles.Pelo menos a história há de fazer justiça e contar os fatos que tantos desconhecem, por omissão de quem deveria informá-los.

  • Milton Rodrigues disse:

    A pretensão da RBS de interferir na política do Rio Grande do Sul é tanta que chegou a eleger um seu funcionário,o jornalista Antonio Brito (o urubu do Tancredo, que governou de 1994 à 1998). Em meio à onda de privataria, instalação de pedágios com preços abusivos, e corrupção, a RBS se esmerava em elogiar de forma explicita Brito e o seu desgoverno (assim como fazia com FHC). Quando Olivio Dutra (PT) foi eleito governador, a RBS mudou esta postura radicalmente, desenvolvendo verdadeira guerra midiática diária contra ele, sem tréguas. A RBS desenvolveu campanhas de marketing negativo que incluia atemorizar a população com o problema da violência, que saiu das páginas policiais e foi para as manchetes de capa e páginas políticas. A RBS tentou fazer um linchamento político de Olivio Dutra por que este não aceitou dar de presente para a Ford milhões de reais em dinheiro público para que se instalasse no RS. Na última eleição o “partido” RBS conseguiu eleger mais uma sua funcionária como senadora. A jornalista Ana Amélia Lemos (PP), que passou décadas fazendo jornalismo político se dizendo isenta e imparcial, agora se revela com posições bem claras à direita, representando em especial, os ruralistas.

  • Eduardo Raio X disse:

    Esta impressa não passa de PIGuia de médiuns desequilibrados por que também são bilolados dos miolos, eu como espiritualista cheguei a essa conclusão. Eles gosta de manifestar em médiuns tipo a turma do PSDB, DEM, PPS e PV que não estuda, pesquisa, entende ou faz o mais certo e importante não ama e acredita no Brasil com S! São como dizem encostos atrasados e infelizes que somente traz dificuldades, problemas e confusão na vida dos brasileiros! Saravá meu pai Oxalá! Agradeço! Porque existe os blogs que fazem uma boa defumação de excelente esclarecimento nas mentes avidas por informação de qualidade e valor! Saravá!

  • JOSE ROBERTO(PIRACICABA SP) disse:

    Parabéns Juiz Diogenes. Sábia decisão. Continue assim. A RBS agradece.

  • Antonio Soares disse:

    Acabo de ler na Carta Capital, reportagem com o ex-governador gaucho Olivio Dutra. Continua morando em Porto Alegre, no mesmo apartamento que sempre morou quando era funcionário do Banrisul ( 64 m2 !), e locomove-se de ônibus na capital do RS. Quando governador, foi barbara e injustamente perseguido pela RBS. De tão honesto, não se dobrou ao poder do PiG. Por isso foi injustiçado. E ainda tem “jornalistas” que se acham as vestais da mídia. Por quê não falam nada desse escândalo da CBF então ?

  • Almir Wagner disse:

    Não há oligopólio. kkk
    Conta outra. Só para se ter uma idéia, quando do processo de cassação do ex-governador Luiz Henrique, simplesmente não encontrávamos notícias na mídia estadual. Somente notas que nada diziam. LHS tinha a mídia nas mãos, e não só o grupo RBS. Este estado tem muito chão pela frente até se tornar verdadeiramente democrático e totalmente independente.

  • Fabricio Alves disse:

    Ninguem merece o Lasier Martins.

  • ´Lenir Vicente disse:

    Agora que o Aércio Never ganhou um palanque na Fóia é que o livro do Amaury não sai mesmo!Fiquem tristes não.A Ley dos Médios ainda vai sair.Eu confio.

  • Ronaldo disse:

    Mataram o PC Fafias e não deu em nada – quem disse que se ele fosse tocado, muita coisa iria explodir
    Nossa Presidenta Dilma fez seu Ministro de Transportes e não deu em nada nem vai dar, pois que tiver Juízo não vai fazer barreira a seus projetos.
    Creio que seria interessante o governo contratar uma pesquisa de aumdiência e rever os contratos de publicidade a partir do resultado da pesquisa. Vão pipocarf mas não vai dar em nada também….

  • Fred Azevedo disse:

    Em Minas, também não existe liberdade de expressão.

    Se as pessoas não forem para as ruas, e exigir a regulamentação dos meios de Comunicação como previsto pela Constituição, não faremos as reformas necessárias neste país.
    Tudo passa pelos meios de comunicação!
    O resto, é sonho de uma noite de verão.

  • flaino... disse:

    Pois é…

    “brasileiros e brasileiras…”.

    Mas não mexam com o meu filho.

  • Rogério Floripa disse:

    Isso aqui é um feudo.

  • atenir disse:

    Já falei que o PT e o governo Dilma dormem no ponto. Quando acordarem será tarde demais. Não é possível que, com uma grande maioria no CN, o governo não tenha coragem de, pelo menos, iniciar um processo de regulamentação das comunicações no Brasil, intensamente marcadO pelo oligopolio de poucas famílias. Estas sim fazem a censura como querem e o judiciário acata e dá o aval definitivo.

    “O maior inimigo do PT, realmente, é o próprio PT.”

  • Murdok disse:

    Aqui em SC vivemos sob a espada dessa RBS. Aqui não existe o contraponto da critica. Simplesmente não há crítica.
    Nossa saíde são os blogs sujos.

  • Evandro Marcos disse:

    Cadê o livro do Amaury ?

  • v disse:

    “verificando-se claramente que o mercado é “disputado” por vários jornais, filiados ou não ao grupo RBS (…). Resta claro que não há a formação de oligopólio (…).”

    não, claro que não excelência.

  • igor-DF disse:

    Ontem fiz questão de mandar um e-mail para o “fale conosco” da globo, perguntando sobre alguma notícia do Ricardo Teixeira, já que até deputados falaram abertamente sobre isso.

    Não me deram nenhuma resposta até hoje.

    Agora vá eu falar que quero pagar uma propaganda no site deles se eles não ligam no mesmo momento.

  • mauricio augusto martins disse:

    Escola de Base, Ibsen Pinheiro, a mãezinha que perdeu sua filha bebê, porque o delegado corroborado pela doutora, mandaram prender, e nem no sepultamento de seu rebento, pode sequer, chorar sua perda, por pózinho, constatado como leite em pó, em melhor análise, e olhe que estamos em compendio, com subjetividade dos fatos, não tem jeito, fim ao pig, e seus asseclas, esta na hora, de colocar além de ladrão de galinhas, outras “otoridades”, na cadeia, pois a desinformação age consubstânciamente, com o golpe a ordem economica, que vem a seguir…maumau

  • Mateus 7.5 disse:

    “… tira primeiro a trave do teu olho, e então verás bem para tirar o argueiro que está no olho de teu irmão…”

    Vocês não vão censurar Mateus, vão?

  • andré barbosa de barros disse:

    dá-lhe globo! manda em tudo mesmo! o brasil tá todo dominado pela globo! tá dominado! tá tudo dominado!

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