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Audálio: "as duas guerras de Vlado Herzog"

Audálio Dantas era presidente do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, quando o presidente da CBF, deputado José Maria Marín fazia campanha contra Vlado, na TV Cultura.
publicado 06/05/2013
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O Conversa Afiada reproduz entrevista de Audálio Dantas a Lucílio Lessa sobre seu livro "As duas guerras de Vlado Herzog":


“A Comissão da Verdade trouxe uma contribuição importante”



Com a divulgação de que a Comissão Nacional da Verdade e o Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul decidiram exumar o corpo do ex-presidente João Goulart (a família acredita que ele possa ter sido envenenado), tal comissão, criada em 2012 pelo Governo Dilma Rousseff para investigar violações de direitos humanos cometidas no Brasil por agentes do Estado entre 1946 e 1988, dá mais um contributo para o esclarecimento de crimes ocorridos durante a ditadura militar. Também por conta da atuação da Comissão da Verdade, em março, a família de Vladimir Herzog finalmente recebeu o atestado de óbito definitivo do jornalista, que torturado pelos militares, morreu no dia 25 de outubro de 1975. Na ocasião, o exército alegou que ele havia se suicidado. Em entrevista exclusiva, o jornalista Audálio Dantas fala sobre esse episódio e de como a morte de Herzog deu início ao despertar de consciência nacional para o combate aos crimes da ditadura. A história é contada no livro “As Duas Guerras de Vlado Herzog”, publicado pela Civilização Brasileira. Filho único de um casal de judeus iugoslavos, Vladimir Herzog nasceu em 1937, e aos quatro anos, com a invasão da Iugoslávia pelas tropas nazistas, sua família fugiu para o Brasil. Essa é a primeira guerra contada no livro. A segunda foi contra o regime militar.

Lucílio: Quais os desafios que o senhor encontrou para escrever esse livro?
Audálio Dantas: O primeiro desafio foi comigo mesmo. Fiquei em dúvida durante 30 anos.  De vez em quando pensava: “Tenho que escrever esse livro”. Mas ao mesmo tempo encontrava uma barreira dentro de mim que se caracterizava, sobretudo, pelo aspecto emotivo. Reviver aqueles dias significava quase uma sessão prolongada de psicanálise. Fora isso, havia a preocupação em relação aos fatos, aos nomes, circunstâncias, datas. No calor dos acontecimentos, não anotei nada, então teria que: ou recorrer à memória, ou buscar informações em fontes as mais diversas, inclusive do próprio Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. Mas o fato é que desde o início minha motivação para escrevê-lo era mostrar a intensidade da tensão que se passou durante aqueles dias que precederam e sucederam o assassinato do Vlado Herzog.

Lucílio: Como era o contexto em que tudo ocorreu?
AD: Vlado estava no contexto de uma ação desenvolvida pelos militares da ultradireita que se opunham ao projeto de abertura do General Geisel. Nesse processo, o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo estava presente desde o início da minha gestão, em maio de 1975. Dois meses depois, já fui convocado pelo comandante do 2º Exército para explicações. Havia uma escalada projetada por esses militares que se baseava numa mentira, no pretexto de que a imprensa estaria infiltrada a mando dos comunistas. Às vezes se falava: “a imprensa está dominada pelos comunistas”. Era um absurdo total, até porque os jornais, com exceção do Estado de São Paulo, estavam todos censurados. Sendo assim, mesmo que os comunistas estivessem lá, não aconteceria nada, pois a censura se encarregaria de vetar, impedir que eles tivessem qualquer atuação no sentido de propagar informações de interesse do Partido Comunista.

Lucílio: Como foi o cronograma dos acontecimentos no período da prisão do Vlado?

AD: A escalada se acentuou a partir do dia 5 de outubro de 1975, com a prisão do jornalista Sérgio Gomes da Silva (nesse momento Audálio pensa em voz alta: “prisão não, todos os casos se caracterizavam como sequestro”). Junto com isso, houve o desbaratamento do comitê estadual do Partido Comunista em São Paulo. Eles (os policiais) tinham ido prender todos os dirigentes, alguns destes inclusive foram assassinados. Aí chegou a vez dos jornalistas. Quem cuidava da base estudantil e dos jornalistas (no PCB) era o Sérgio Gomes. Ele tinha uma atividade muito marcante no Partido. O Sérgio era proveniente da ECA (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo) e passou a se encarregar do estudantado com a caça ao Vargas Neto (João Guilherme Vargas Netto, ex-dirigente do Partido Comunista), que era quem cuidava dessa base. O Sérgio era um jovem de 26 anos com a responsabilidade imensa de cuidar dos jornalistas e dos estudantes. Essa foi a primeira sequência. Depois da prisão dele, houve 11 sequestros de jornalistas até a morte do Herzog. O Sindicato  estava desde o início denunciando essas prisões. A gente viveu dias de muita tensão que culminaram com a morte do Vlado, o 12º jornalista a ser sequestrado.

Lucílio: Diferentemente do que aconteceu com outros jornalistas, Vlado se apresentou ao DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna). Como foram as circunstâncias?
AD: O Vlado foi procurado no local de trabalho, na TV Cultura, e houve uma negociação para ele se apresentar no dia seguinte. Os fatos que vêm desde a apresentação dele ao DOI-CODI até a realização do culto ecumênico do dia 31 de março (em memória de Herzog na Catedral da Sé, do qual participaram 8.000 pessoas num protesto silencioso contra o regime militar), fizeram daqueles dias o período mais pesado de ameaça e de tensão. O Sindicato dos Jornalistas se transformou numa espécie de muro das lamentações para pessoas com parentes presos, desaparecidos, torturados, enfim, de todo o drama que a gente conhece. Foi quando aconteceu um fato importante, determinante. Começaram a chegar pessoas de diversos setores da sociedade. Representantes de entidades, organizações de advogados, arquitetos, enfim, o Sindicato deixou de ser só dos jornalistas. Isso nos levou a uma situação em que a legislação permitia uma intervenção a qualquer momento. Bastava justificar que o Sindicato estava sendo refúgio ou espaço para atuação de pessoas de outras categorias para que eles pudessem intervir legalmente.

Lucílio: Que cuidados vocês tiveram?
AD: Foi um momento de grande dificuldade e de temor. Desde o início tivemos uma constatação clara: as reuniões do Sindicato não eram mais somente de jornalistas, então não podíamos caracterizar aquilo como assembleia. Devíamos ter todo o cuidado para evitar que aquele canal de expressão e manifestação fosse fechado. Daí é que se chegou à atuação responsável pela condução do movimento de protesto até o ponto de se realizar o momento culminante daquele movimento, o culto ecumênico. Esse momento teve influência marcante na história da ditadura militar. O livro é o reflexo da minha necessidade de contar o que eu presenciei naqueles dias, mas é principalmente o resgate da participação do Sindicato dos Jornalistas, porque as referências que se fazem ao caso Herzog são generalizadas e dizem apenas que houve o assassinato e uma reação da sociedade. Como foi essa reação é que precisava ser contado.

Lucílio: Como o senhor avalia a atuação do Sindicato dos Jornalistas antes da sua gestão?
AD: Desde 1964 o Sindicato dos Jornalistas estava na mão de diretores. Não vamos dizer que eles fossem apoiadores (da ditadura), mas foram no mínimo omissos. Ao assumirmos a direção em maio de 75, tínhamos consciência de que nossa função era muito mais política do que sindical. E eles (os militares) sabiam disso. Tanto é que nos documentos que consultei depois, em 2011, constava que os militares consideravam o nosso movimento uma tentativa de constituição de um partido com orientação comunista para dominar a imprensa, nacionalmente. Então, logo de início, começamos a agir como um sindicato de oposição à ditadura, discutindo a censura, organizando debates etc. Dois meses depois, como disse, estávamos envolvidos nas malhas dos militares e fomos convocados para explicar coisas. Na minha interpretação, o que aconteceu a partir da morte do Vlado foi um grito ouvido primeiro pela categoria dos jornalistas, que tinha razões de sobra para dizer “chega!”. Para se ter uma ideia, nas redações, os jornalistas recebiam frequentes comunicados dos militares sobre pessoas que morreram em confronto, em fugas, sendo que todos sabiam que não era verdade. Então houve uma reação dos jornalistas nesse sentido, pois um sindicato que era vazio de repente começou a receber jornalistas de todas as redações no dia seguinte à morte do Vlado. Eles sabiam, até por intuição, que não havia sido suicídio.

Lucílio: Houve um despertar de consciência.
AD: Sim, e esse despertar de consciência se propagou em termos nacionais. Foi o despertar da consciência nacional. Não era possível aguentar a repetição daqueles assassinatos. Situações em que os corpos ou desapareciam, ou eram entregues às famílias com ordens para elas não se manifestarem e os enterrarem o mais depressa possível. Mas no caso do Vlado isso não ocorreu. E uma imagem mais literária da coisa se materializou  numa nota do Sindicato dos Jornalistas emitida no dia 26, ou seja, no dia seguinte à morte do Vlado. Estava claro que não aceitávamos a versão do suicídio. O Estado de São Paulo publicou a versão do exército, ou seja, o comunicado do suicídio, mas também a versão do Sindicato dos Jornalistas. E deu a convocação - que constava na nota do sindicato - para o comparecimento ao sepultamento do Vlado, no dia 27. Isso já começou a materializar os movimentos de protesto mais amplos, porque no sepultamento, no dia seguinte, havia cerca de 1000 pessoas no cemitério. Todos os outros protestos haviam  sido feitos em silêncio. Essa foi a diferença básica. Mesmo os jornais que estavam  sob censura, como é o caso da Folha de São Paulo, deram a notícia. Mas discretamente, claro.  A grande imprensa, que estava arrolhada ou por imposição, ou por omissão, ou por apoio ao regime militar, começou a anunciar.  Isso foi um fenômeno importante.  Portanto a morte do Vlado começou a derrubar  a censura. Foi um impacto tão grande que nem a repressão teve uma ação imediata.

Lucílio: Que tipos de ameaças vocês passaram a receber nesse período?
AD: As ameaças não eram explícitas. A gente sofria de maneira sub-reptícia. De repente eu recebia um telefonema anônimo, esse tipo de coisa. Tanto eu quanto outros diretores do Sindicato, passamos a dormir sempre em lugares diferentes, mas todo dia estávamos no Sindicato dos Jornalistas, que se transformou numa trincheira. Também houve ameaças diretas, como a do secretário de segurança, o Coronel Erasmo Dias, uma pessoa raivosa, conhecida pela truculência. Por considerar que os comunistas estavam preparando um evento para perturbar a ordem pública, ele falou para a gente se acautelar, porque antes que nós jantássemos, eles almoçariam. Era uma ameaça direta. E isso foi publicado pelo Jornal da Tarde. Essa tensão foi crescendo até que nós recebemos telefonemas diretos do 2º Exército dizendo que estávamos passando dos limites e armando uma situação que seria muito perigosa. Isso vinha do porão, não vinha oficialmente. Esse perigo seria que qualquer tentativa de manifestação além do culto, da reza, seria considerada uma afronta e haveria uma ação firme das forças policiais. No dia do culto eles armaram um grande cerco com 380 barreiras policiais, para evitar que as pessoas chegassem ao centro da cidade. Mas assim mesmo chegaram  oito mil pessoas, o que constituiu a primeira manifestação de massa importante, depois do ato do sermão (os poemas de O Sermão do Viaduto foram lidos pelo poeta Álvaro Alves de Faria, no viaduto do Chá, no centro velho da cidade de São Paulo, com microfone e quatro alto-falantes, em plena ditadura militar, no ano de 1960), e terminou tudo em paz. O que eles não queriam que acontecesse, aconteceu.

Lucílio: Como vocês conseguiram esse resultado pacífico mesmo com a revolta gerada pelos acontecimentos?
AD: Houve um consenso entre nós e Dom Paulo Evaristo Arns - que atendeu nosso convite para celebrar o ato e liderou esse processo - e o Rabino (Henry) Sobel. Fomos questionados inclusive se estávamos preparando algo que nos responsabilizasse por algum sangue derramado. Secretários de Estado chegaram a dizer a Dom Paulo que ele não deveria fazer aquilo, pois o Vlado Herzog era judeu e comunista. Mesmo assim Dom Paulo disse que faria. Ao Rabino Sobel, que era então um jovem norte-americano recém-chegado ao Brasil e que mal falava português, foi dito por dois generais que foram à congregação israelita: “O senhor sabe que a sua responsabilidade é muito grande? O senhor não deve ir, até pelo fato de ser estrangeiro”. Quer dizer, houve esse tipo de intimidação. Mas o curioso é que parece que naquele momento havia uma conjunção de aspectos diversos, até uma transmissão de pensamento, eu acho. Era o sentimento de que não podia continuar daquele jeito, apesar do medo. Foi o que aconteceu comigo e acredito que com o Cardeal Arns e o Rabino Sobel. O medo foi uma coisa sempre presente. Negar que havia medo é uma besteira. O comportamento da cúpula da comunidade judaica foi absolutamente vergonhoso, porque se omitiu, se encolheu, e foi salvo pela coragem do Rabino Sobel. Eu fiz o discurso de encerramento do culto. Dom Paulo já tinha dito que todo mundo deveria sair em silêncio, em pequenos grupos, sem qualquer outra manifestação. E isso calou profundamente. Ao terminar o culto, quando vi a praça se esvaziar, disse: “Tenho que contar essa história”.

Lucílio: Que outras figuras fizeram a diferença naquele momento?
AD: Uma figura emblemática da resistência à ditadura foi Dom Helder Câmara, que tinha ido receber um prêmio por defesa dos direitos humanos, na Inglaterra, e parou em São Paulo para participar do culto. Ele não foi um dos celebrantes, mas foi um dos sacerdotes que estavam  no altar. Muita gente sequer percebeu que Dom Helder estava ali. Ele ficou o tempo todo em silêncio. Quando terminou o culto, da sacristia, perguntei a ele: “Dom Helder, o senhor não quis falar?” E ele disse: “Meu filho, há momentos em que o silêncio fala muito mais alto que qualquer discurso”. Foi exatamente o que aconteceu. Os grupos minoritários, de tendências políticas mais à esquerda, pretendiam fazer passeatas, mas prevaleceu esse sentimento de que deveria ser evitada qualquer manifestação.

Lucílio: Só recentemente (março de 2013) foi expedido um novo atestado de óbito para Vlado Herzog. O documento agora traz como causa da morte "lesões e maus-tratos sofridos durante o interrogatório nas dependências do segundo Exército DOI-Codi". Por que essa correção demorou tanto?

AD: Sucessivos governos democráticos que vieram depois da queda da ditadura têm essa dívida com o Brasil. Não apenas quanto ao caso Herzog, mas no geral. Nenhum governante enfrentou a situação na medida certa, como aconteceu em outros países da América Latina, principalmente Argentina e Chile. Assistimos coisas que podemos considerar ridículas. As manifestações contrárias no setor militar vêm principalmente de bolsões que não têm absolutamente nenhuma representatividade. No conserto das nações hoje, o Brasil é um país de uma importância muito maior do que era naqueles anos. Nós crescemos, superamos problemas internos muito graves do ponto de vista social. Economicamente, somos a 6ª economia do mundo, então não dá para entender que apenas recentemente, no ano passado, sob o governo Dilma, houvesse uma interpelação da Corte da Sociedade Interamericana de Direitos Humanos no sentido de que o governo brasileiro informasse a respeito das circunstâncias da morte do Vladimir Herzog. E a resposta vergonhosa do governo naquela ocasião foi de que não podia fazer isso por conta da lei da anistia. Mas ao mesmo tempo, a Dilma se redime quando institui a Comissão da Verdade, que não tem poder de punir ninguém, mas tem um papel muito importante, determinante, o de estabelecer a verdade de muitos casos que permanecem no esquecimento.

Lucílio: O senhor acha que a Comissão pode esclarecer o caso Herzog?
AD: Há um problema sério, que é o tempo que se deu  para a atuação dessa comissão. Dois anos é um tempo muito curto. Recentemente a presidente Dilma autorizou a contratação de mais assessores, porque não estavam dando conta. São centenas de casos, assassinatos, milhares de prisões ilegais. Como é que dá para ver tudo isso em dois anos? Em todo caso, foi um passo importante. E as consequências disso são nítidas. A primeira delas foi justamente o fato de que o atestado de óbito do Vladimir Herzog deveria ser retificado. Uma vitória não só para a família do Vlado, mas para todos os casos de presos que foram assassinados durante a ditadura e têm em seus atestados de óbito suicídio, atropelamento, enfrentamento com as forças de segurança. E todo mundo sabe que não foi assim. Outro fato importante é que a existência da Comissão da Verdade proporciona um debate que havia sumido no país. Não se debatia a questão da ditadura. Falava-se aqui e ali, escreviam aqui e ali, mas não se debatia, e isso está acontecendo agora. Então é fato que a Comissão da Verdade trouxe uma contribuição muito importante, mas acho que não basta. Devemos chegar ao esclarecimento não só de que tal pessoa foi morta, mas saber como, por quem. É isso que a Comissão deve fazer. O “deixa pra lá” é um traço da cultura política brasileira, mas há um momento em que a gente deve dizer claramente que não é possível empurrar com a barriga.

Lucílio: Do que se tem medo no que se diz respeito a essas revelações?
AD: Há um temor absolutamente infundado de que haja reações na área militar. Eu acho que só haverá isso se nós tivermos um grupo de loucos nas forças armadas nacionais. Porque a situação que a gente vive hoje não permite esse tipo de aventura do passado. Então é um medo infundado e, na verdade, se caracteriza na maioria das vezes como covardia. Na sentença sobre a morte do Vlado, em 1978, a União foi condenada por prisão, tortura e morte. No final da sentença, o Juiz Márcio Jocélio Morais, cuja história está contada no livro, determina que o Estado apure as circunstâncias, mas até hoje isso não foi feito. Eu vou cobrar a vida inteira, porque ainda não se cumpriu uma sentença. É uma covardia e um desrespeito muito grande.

Lucílio: O episódio na ditadura foi o maior desafio na sua trajetória como jornalista?
AD: Foram os dias mais difíceis que eu passei na minha vida, independentemente da profissão. Ficaram gravados. Não sofri tortura, mas fico imaginando o que acontece com uma pessoa que foi torturada. Ela nunca vai se livrar desse fantasma. Volta e meia me ponho a imaginar o que poderia ter acontecido naqueles dias, comigo e com tantos outros mais. Eles (os militares) preparavam o que chamavam nos porões de Operação Jacarta, que era uma operação de extermínio. Eles estavam loucos. O medo deles era deixar de ter o poder de vida e morte sobre as pessoas, de não mais satisfazer seus interesses, e da punição. E antes que isso tudo acontecesse, resolveram liquidar todos os comunistas. Fico pensando o que mais poderia ter acontecido naqueles dias.

Lucílio: Como o senhor enxerga a atuação dos sindicatos de jornalismo hoje?
AD: Evidentemente houve uma evolução muito grande desde a queda da censura, do fim da ditadura, da criação da Constituição de 1988. A manifestação de pensamento e liberdade de expressão são enormes.  E evidentemente com  isso abriram-se espaços para que os problemas nacionais fossem expostos, discutidos. Houve um progresso muito grande no desenvolvimento da mídia, principalmente a mídia eletrônica, que cresceu de maneira extraordinária. Mas não significa que a censura tenha desaparecido. Os jornalistas brasileiros, hoje, sofrem outro tipo de censura, a dos interesses econômicos, a censura das conveniências políticas, e a censura que de vez em quando é aplicada pelo poder judiciário. Há vários casos no País em que por decisão judicial, jornalistas são proibidos de noticiar informações, principalmente no meio da internet. Não é o poder judiciário institucionalmente que faz isso, mas membros que praticam esse tipo de censura. O poder local se julga ofendido por informações, e recorre ao poder judiciário.

Lucílio: Que outros assuntos o senhor julga imprescindíveis no debate jornalístico?
AD: Há um problema muito grave no país, na área de comunicação, que é a concentração dos meios. Quando se discute a questão de se regular os meios de comunicação, e estabelecer um novo marco das comunicações, imediatamente há uma reação que impede o debate. Logo se diz que se está pretendendo fazer censura, acabar com a liberdade de expressão etc. E isso não é verdade.  O último marco regulatório da mídia eletrônica é de 1962. Por que não se pode ao menos discutir essa questão? Outra pauta  importante é a regionalização da informação para preservação da cultura. O país não é igual, é diferente até do ponto de vista econômico, tem desigualdades muito grandes. Então por que no Ceará, no Acre, no Piauí, deve se falar da mesma forma que no Rio de Janeiro e São Paulo? Todas essas medidas são necessárias para a democratização dos meios de comunicação. O fato de prevalecer essas situações, significa para mim um impedimento da livre expressão de pensamento. Quer dizer, a censura de certa forma continua, por formas não diretas.

Lucílio: O senhor é autor do livro O menino Lula, que conta a infância do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Falando do Lula de hoje, qual o papel dele nesse momento do país?
AD: Primeiro você tem que reconhecer que o Lula fez um governo de resgate das massas mais oprimidas, mais abandonadas do país, e só isso já vale. Acho que ele fez um governo corajoso, nesse sentido. Ele é um grande articulador.  Mas não foi corajoso em relação à questão dos militares. Nesse momento, o papel dele continua sendo político. O Lula às vezes diz que não está fazendo política, mas está fazendo política o tempo todo. No meu entender, o papel dele hoje  é brigar pela continuidade da Dilma no poder. E ele faz isso muito bem. Acho que é um serviço, porque o governo Dilma tem aspectos absolutamente importantes, positivos. Ela deveria avançar mais na questão relativa à ditadura militar, mas no geral o governo dela está sendo muito importante.