O Conversa Afiada reproduz excelente artigo de Mauro Santayana, extraído do JB online:
Cadeia para os assassinos
por Mauro Santayana
Algumas religiões santificam a mendicância, como o ato mais expressivo da humildade. Pedir aos outros o pão, em lugar de o obter mediante o trabalho, é visto, assim, como o contraponto à vaidade e à arrogância. As sociedades, sendo profanas, não vêem com os mesmos olhos o ato de pedir. Os costumes, diferentes das razões éticas, sobretudo os construídos pela consciência burguesa, condenam a mendicância, ainda que admitam, com certo cinismo, a caridade. É interessante registrar que Sartre, senhor de grande lucidez e, em algum tempo, militante revolucionário, andava com moedas nos bolsos, que distribuía aos mendigos do Quartier Latin. Talvez se sentisse, com isso, menos culpado dos desajustes do mundo.
Matar mendigos não é um esporte novo. A civilização cristã oscila entre o exercício da caridade (que, em alguns casos, costuma ser negócio lucrativo) e da repressão. Entre a piedade e a forca, conforme o ensaio do historiador Bronislaw Geremek sobre os miseráveis e pequenos bandidos da Idade Média. No Brasil, a agressão e o assassinato dos diferentes estão assumindo dimensões insuportáveis. Numerosos moradores de rua em Salvador foram trucidados durante a greve dos policiais militares. Há suspeitas de que foram policiais, eles mesmos, os matadores. Coincidindo com os fatos da Bahia, um jovem universitário tentou intervir, ao assistir à agressão de um morador de rua na Ilha do Governador, no Rio, por cinco jovens. Foi quase linchado, teve seu rosto arrebentado pelas patadas, só reconstituído mediante o emprego de 63 pinos de platina.
Não é um fato isolado. Ao ser confundido como mendigo, conforme confessaram os matadores, um índio pataxó foi queimado por jovens bem situados de Brasília. No Rio de Janeiro, há décadas, os adversários de um governador da Guanabara o acusaram de mandar matar mendigos e atira-los junto à foz do Rio da Guarda. E houve quem sugerisse o incêndio, como uma forma de resolver o problema das favelas no Rio de Janeiro. Mais cínicas, autoridades de São Paulo decidiram criar obstáculos sob as marquises e os viadutos, a fim de impedir que ali os miseráveis pudessem repousar. No Rio, outras autoridades dividiram os bancos dos jardins, para que, sobre eles, os mendigos não pudessem deitar.
Esses caçadores de mendigos naturalmente são conduzidos pelo senso estético da ordem do capitalismo totalitário. Uma cidade sem pedintes é muito mais bela. Mas é também muito mais bela, se nela não houver pessoas feias ou enfermas. Assim pensavam os nazistas, em sua cruzada de eugenia – embora não fossem belos nem fisicamente saudáveis homens como Himmler e Goebbels, entre outros. Da mesma forma que pretendiam a eliminação completa dos judeus, incomodava-os, pelo menos no discurso, a existência de homossexuais. Depois se soube que muitos deles eram homossexuais, mais dissimulados uns, menos dissimulados outros, como Ernst Röhm. Joachim Fest, o grande biógrafo de Hitler, chegou a suspeitar que houvesse uma ligação homossexual entre o líder nazista e seu arquiteto predileto e possível sucessor, Albert Speer.
E como o caminho da perfeição, de acordo com essa insanidade, é sem fim, quiseram eliminar, alem dos judeus, outros perturbadores de sua ordem estética e “moral”, como os ciganos, os negros, os mestiços, os eslavos – e os comunistas.
O racismo e a insânia dos nazistas não desculpam – e, sim, agravam – os atos estúpidos contra os miseráveis brasileiros que, sem teto, sem famílias, sem amigos, sem destinos, são nômades nas ruas, onde alguns nascem, e muitos quase sempre morrem. Mas, dessa visão curta de humanismo, padecem pessoas instruídas e aparentemente responsáveis, como a ministra francesa, que aconselhou os sem teto de seu país a não sair de casa, por causa do frio europeu que vem matando os desabrigados às centenas, e a juíza brasileira, que decretou a prisão domiciliar de um morador de rua.
A polícia tem o dever de identificar os matadores de mendigos e de levá-los à Justiça. E os juízes não podem se deixar engambelar pelos advogados dos assassinos. Em uma sociedade já tão injusta com os pobres, cabe ao Ministério Público e à Justiça socorrer os que, desprovidos de tudo, só têm a lei como consolo e esperança.
A sociedade se emociona com a coragem solidária do jovem Vitor. O Estado deve a ele uma manifestação oficial de reconhecimento. Seria louvável se a Assembléia Legislativa lhe concedesse a Medalha Tiradentes, a mais alta condecoração do Estado.



Que pena, que o comportamento do Vitor, esteja se tornando exceção e não a regra.
Medalhas, medalhas… Depois agente não sabe porque tanta vaidade e covardia.
temos muitos heróis anônimos neste país mas o que poderia mudar mesmo este Brasil era elegermos deputados e senadores comprometidos com o povo e a coisa publica e o Mauro Santayana e Paulo henrrique Amorim bem que seriam bons representantes no congresso assim diminuiríamos a lista de picaretas que o Lula se referiu anos atras
Os mendigos são “desprovidos de tudo, só têm a lei como consolo e esperança.”
OBs> ter a lei como consolo e esperança no Braziliuiuiuiu
Coitados! estão perdidos, Deus proteja os mendigos!
Acho que em São Paulo acataram a sugestão de incendiar favelas. Não é muito estranho esses incêndios nas favelas paulistanas? Não vejo isso ocorrer com frequência em outras grandes cidades.
Concordo com cada letra do Mauro Santayana. Vi numa entrevista esse rapaz, Vitor, depois de tudo o que sofreu, dizer que faria tudo de novo se visse um mendigo ser maltratado. Um ato de tamanho desprendimento e solidariedade com certeza merece o reconhecimento público para que ele se torne um exemplo para a sociedade. Medalha Tirandetes para Vitor.
Parem o mundo que eu quero descer!A Maria Antonieta da França aconselhou aos sem teto que não saissem de casa? E os brioches,ela lhes ofereceu? E uma Juíza brasileira decretou prisão domicial a um morador de rua? Quanto preparo!Quanta atenção! Vitor é um HOMEM,não um rato.Cadeia para os assassinos…mas com essa justiça…
Pessoas como o Vitor é que nos fazem crer que a Humanidade ainda tem jeito…
Por que a GROBO não abre espaço para um comentário desta magnitude.
Vitor é um exemplo de que nem tudo está perdido. Um exmplo de quem não se omite. Teremos nós sua coragem Ètica? Parabéns VITOR
Que pena ,que o comportamento do Vitor, seja exceção e não a regra.Mas um dia chegaremos lá!!!
Que delícia que é ler Mauro Santayana!
Ele me impressiona e resgata… tanto quanto o Vitor
que ele sirva de exemplo para uma sociedade tão materialista… esse é um samaritano… Parabens!
Medalha Tiradentes para o Vitor por defender um mendigo e uma merdalha pro Bóris, aquele que instiga preconceito contra garis ao vivo!
Santayana deveria publicar um livro com suas crônicas. Infinitamente melhor do que qualquer texto dos atuais “imortais” que hoje envergonham o nome da Casa de Machado de Assis.
Vc pode ler as crônicas (inclusive de ficção) no blog dele, Zhungarian, no http://www.maurosantayana.com
Todo bandido foi esculpido pelas mãos dos pais. Além de idiotas, tambem são covardes e só agridem mendigos ou pessoas que estejam em desvantagem, manda um corno desses encarar um filho de um pai doido para esses crápulas tomarem uma bela lição. Mas quem com o ferro fere…………………………………..
Essa história das juízas que quiseram confinar sem tetos em suas casas (??) parece com aquela imperatriz que, quando avisada que o povo francês passava fome e não tinha nem pão para comer, recomendou que eles então comessem brioches… A alienação gera um monstro chamado preconceito, é impressionante como a maioria das pessoas que vivem nas redomas de vidro elitizadas(condomínios fechados, colégios particulares, etc.) demonstram comportamentos preconceituosos das mais diversas formas, parece que essa separação da realidade acaba por gerar uma incapacidade de entender que “o diferente não é um inimigo”.
pelo q disse qdo saiu do hospital, o vítor não oncorda mto com essa idéia…
O micro espelha o macro.
http://antikrieg.com/links.htm
Em 1984 Orwell nos induz a perceber a facilidade que se transforma uma cultura em fascismo, por meio de indivíduos que se auto-alienam e tornam-se adeptos a uma ideologia totalitária. O livro denuncia, sobretudo, os caminhos que levam a população a abrir mão de sua liberdade em nome da “conveniência e da segurança”, apontando que a liberdade que se perde é real e conhecida enquanto desconhecida é a natureza da “segurança” que se recebe em troca.
http://de.rian.ru/politics/20111222/262316064.html
A ideologia fascista, macartista tem o mesmo “modus operandi” – abomina o humanismo e, no fervor chauvinista embandeirado de clichês raciais, extermina aqueles que, pela mesma ideologia haviam sido excluídos. Destarte, imolou-se Thomas Sankara, Patrice Lumumba, Salvador Aliende, Carlos Mariguela, Aluisio Palhano, Pablo Neruda, Martin Luther King, Muamar al-Gaddafi …. e tantos outros que ousaram humanizar os mais desfavorecidos.
http://libiaverde.wordpress.com/2011/11/15/as-%e2%80%9ccrueldades%e2%80%9d-de-muammar-kadafi/
Antes de tudo, manifesto minha mais profunda admiração pela coragem de Vitor.
Reconheço também a excelência ética (e estética) do artigo-manifesto de Santayana.
Mas, devo dizer que os impulsos fascistas, que andam à solta pelo mundo afora, podem transcender as elites, os setores incluídos, enfim as classes dominantes.
Aqui está o perigo: quando os fascismos, vindo desde cima, contaminam o povo dominado na periferia, na favela e nos guetos, fechando o seu círculo de fogo, como testemunhei em “Pegaram o Tarado” (http://www.youtube.com/watch?v=6q7bHktD8Qk).
Combater tais impulsos é dever de todos que se inspiram de verdade no exemplo de Vitor.
Mais um artigo do brilhante Mauro Santayana.
Linda e edificante matéria! não é todo dia que temos noticia de um herói . Medalha Tiradentes para o Vítor!
Eu não conseguiria ser tão corajoso quanto Vítor, portanto só tenho que agradecer a ele por lavar nossas almas covardes….
Por que favela em são paulo pega fogo e no Rio não??? Alguém aí sabe a resposta???
Nas comunidades urbanas brasileiras, até metade do século vinte, cada casa tinha seus mendigos que regularmente vinham recolher seus trocados. Na falta de dinheiro, dava-se algum gênero alimentício, pão, arroz, farinha. Era religioso. Davam a esmola com expressão de pesar e humildade, como se estivessem envergonhados de ter conforto enquanto o outro padecesse privações. Quando não se tinha nada a dar, por algum motivo de desprevenção, pedia-se sincero perdão ao pobre. A verdade é que a cultura pré-capitalista brasileira, a par de sua cruel sujeição a uma elite isolada e inatingível, sabia que estava cometendo pecados de desigualdade injusta com os pobres e dava espaço para profundos sentimentos de piedade e solidariedade. Sentimentos que a cultura capitalista desenfreada, que veio em seguida, aboliu.
São Paulo está despertando do pesadelo fascista
http://www.youtube.com/watch?v=OVrRN_kPlbg
A covardia e a vaidade humanas não tem fim… Com certeza se existe o inferno ele é bem aqui na TERRA. Parabéns Vítor, seu ato corajoso, ainda que solitário, prova que a humanidade ainda não está totalmente perdida.
“O BRASIL PARA TODOS não passa na glOBo – O que passa na glOBo é um braZil para TOLOS”
É isso aí Vitor. São jovens como você que dignificam a cidadania do povo brasileiro. Não há como comparar a sua atitude com a dos que lhe conferiram brutal e covarde massacre. Não consigo compreender o que se passa na cabeça desses covardes no momento em que lhe atacavam, cinco contra um totalmente indefeso. Será que hoje existe algum remorso na mente dêles ? Duvido. Só espero que não haja brechas na justiça para manter esse lixo humano fora da cadeia.
Vitor será sempre uma pessoa que levarei a minha mesa de oração todas as terça em que reúno minha família para orar, agradecer e pedir. Citarei ele como um exemplo a ser seguido pelos meus filhos, minha mãe ficará orgulhosa dele, ele sim é o justo ao qual Jesus se referia, seu espírito tomou partido quando foi chamado à decisão, e ele disse sim.É assim que penso.Hoje agradecerei pela existência de Vitor e pedirei pelo mendigo.
Já pensou um Slogan “São Paulo sem miséria”. É de arrepiar!!!
Em São Paulo foi institucionalizada a prática de queimar favelas.
Mas o tal prefeito busca um salvo conduto, em um acordo com o pt, para salvar sua pele e de seu mentor intelectual, juntamente com os frias, mesquitas, marinhos e civitas.
Ele já disse que não quer ser herói.
E ele está certo.
Miseravel do país que precisa de heróis, já disse Bertold Brecht.
Frase já manjada, mas nunca é demais citá-la.
Quando se chega a esse ponto, é necessário uma revolta da cidadania que cobre a omissão do Estado, que por obrigação deveria cumprir. Ou então, substitua-os por delegação popular.
A sim, a proposta pode incentivar os demais jovens a reflexão. Dilma deveria oferecer esta medalha certamente. Tem muito pai e mãe ensinando comportamento homofóbico, assim como o desprezo de índios, mendigos, etc. Trata de ser aquelas famílias que veneram a cultura européia e norte americana, alegando que todo o resto é lixo. Muitas famílias das classes mais baixas, ainda ensinam aos filhos que a época da ditadura era boa.
Se os desafortunados forem depender da justiça e do ministério público brasileiros como esperança, podem “tirar o cavalo da chuva”, Mauro. Você mesmo vive dizendo que o Brasil NÃO passou pelo Iluminismo e pela Revolução Francesa.
Ele merece mesmo. O Santayama tem razão. O Estado do Rio de Janeiro deve mostrar esse jovem como exemplo de conduta para seus cidadãos!
Medalha Tiradentes para o Vitor, sim!
A medalha Tiradentes para o Vitor!!!!!!!!!!!!!
Apoiadíssimo!!!!
Excelente taxto, só os Tucanos não leem. Será que não leem mesmo?…
Viva o novo herói brasileiro, Vitor. Essa sociedade da elite estúpida, são hipócritas, pois, vão à igreja, rezam, depois faz alguma doação(acreditando que irá reservar um lugar no céu), após isso, agir com indiferença, arrogância, preconceito e até matando as pessoas sem tetos, sem roupas, sem comida.
Belíssimo Artigo.
Acho decepcionante quando alguém acredita que se pode obter algo importante como a justiça através da punição. No que a punição vai ajudar ao Vitor, ao mendigo ou a qualquer pessoa? “Encontramos os culpados! Vamos infringir-lhe dor”. Poxa, já não há sofrimento bastante no passado para ser reparado, querem ainda causar no outro, no ofensor?
Pra quê? Pra que todos aprendam a usar da violência como método?
E não era esse o problema desde o começo?
Ótimo! Deixemos tudo como está, afinal, porque se preocupar com fatos tão pequeninos? Tão sem importância, são apenas jovens soltando um pouco da sua energia, uma multas de cestas básicas a ONGs resolve e pronto.
Agora, sério, sem lei e o devido cumprimento da mesma, será difícil a construção de uma sociedade justa, aonde a vida seja respeitada.
(Imagina se um dia, você é pego mal vestido, e os “jovens” em questão te confundem…)
E você sugere o quê?
Justiça com as próprias mãos.O sangue, de quem causou o mal. Olho por olho, dente por dente. Essa seria a resposta se não tivesse julgamento e punição.
Ok. Então dá a Medalha Tiradentes pros outros caras, em vez de puni-los. Melhor assim? Cada um…
Ah! E é infligir dor.
Caro jovem Victor, remeto a uma reflexão nesse sentido à obra de Michel Foucault: Vigiar e Punir. A verdadeira função do castigo pela justiça é reprimir futuras ocorrências mostrando que há consequências dos malfeitos praticados. O controle social advindo disso deixa a vida em sociedade suportável, digamos assim. Imagine se todos se sentissem no direito de fazer o mal a quem desejasse…
A “elite” é igual em qualquer lugar, no Rio, Sampa ou aqui em Curitiba. Não existe melhor ou pior – ou menos ruim e menos pior – poi ela é burra, eugenista e provinciana em qualquer lugar.
“…e a juíza brasileira, que decretou a prisão domiciliar de um morador de rua.”
Como sempre: os operadores do direito brasileiros, claro, com as resalvas e exceções dignas, são umas m…, assim como o sistema. Uma fossa.
De novo Santayana trazendo à palavra o seu olhar atento e crítico de nossa realidade mais e mais falseada pelo consórcio de nossas elites e PIG.
A medalha Tiradentes para Vitor: engrossemos essa proposta de Santayana!
Parabéns uma vez mais ao Santayana pelo excelente texto, e a vc PHA e ao Caf por reproduzí-lo!
Faltou um comentário do PHA criticando a “elite racista” do RJ, como ele faria se o fato tivesse ocorrido em SP.
Bairrismo provinciano, a gente se vê por aqui!
Antes de cobrar algo, procure ver a diferença entre a Elite dominadora de SP com o RJ.
Amigo Kleber, se esse é o único aparte que você é capaz de fazer ao artigo realmete lhe falta a sensibilidade para compreender as nuances desse problema social e inteligência para notar que o artigo é de Mauro Santayana e não do PHA.
Ele queria era aquela navalha, mas, realmente, para quê? O texto é fantastico e Paulo Henrique não é elitista, portanto, o fato de ele ser carioca não o torna incoerente.
Medalha Tiradentes para o Vitor!