Terça-feira, 21 de Maio de 2013

Publicado em 28/03/2011

Wanderley: Lula aprofundou a obra de Vargas

A análise de Wanderley parece a este ansioso blogueiro muito diferente daquela que o Farol de Alexandria prometeu: enterrar a Era de Vargas

A Maria Cristina certamente já viu um posto da Petrobras

Amigo navegante sugere a republicação de entrevista com o professor Wanderley Guilherme dos Santos, de Maria Cristina Fernandes, no jornal Valor de 25 deste mês:

“A outra Era Vargas”, por Wanderley Guilherme


Maria Cristina Fernandes


Dois anos antes do golpe de 1964, quando a esquerda embarcava na onda da revolução, Wanderley Guilherme dos Santos alertava num livro lendário (Quem dará o Golpe no Brasil, Civilização Brasileira, 1962) sobre a quartelada que estava em curso e que acabaria por sufocá-la.


Meio século depois, quando a análise política predominante situa o governo Luiz Inácio Lula da Silva como continuador da herança varguista e já trata de delinear os atritos deste legado com o governo Dilma Rousseff, lá vem Wanderley Guilherme novamente na mão contrária. Aos 75 anos, continua com um facho na mão.


Foi Lula, diz, quem, na verdade, encerrou a Era Vargas. Não fala a partir da Casa Rui Barbosa para cuja presidência ainda não foi oficializado. “A outra Era Vargas” é o tema da aula magna que profere hoje (25/III) no início das atividades do Iesp, o instituto que, encampado pela Uerj, abriga os pesquisadores do antigo Iuperj fundado por Wanderley Guilherme no final dos anos 60.


Recorre ao seu conceito de cidadania regulada, que se tornou um dos mais influentes da ciência política nacional, ao advogar para Lula a condição de coveiro da Era Vargas.


Cunhado no final da década de 70 (Cidadania e Justiça, Campus, 1979), o conceito define a cidadania não por um conjunto de valores políticos mas pela inserção formal no mercado de trabalho. Com Vargas, passou a ser cidadão quem tinha uma profissão regulamentada e pertencia a um sindicato. A carteira de trabalho, na comparação de Wanderley Guilherme, passou a ser, de fato, a certidão de nascimento cívico e acabou controlando a expansão da cidadania no Brasil.


O primeiro ato de rompimento com a cidadania regulada, diz, aconteceu sob Médici, com a criação do Funrural. A abertura política ampliou o rompimento dessa regulação, mas foi apenas no governo Lula que seus pressupostos teriam sido sepultados.


Sem desmerecer o Bolsa Família, prefere lançar mão de um outro programa social, o Brasil Sorridente, para sustentar a tese de que não é preciso mais ser um torneiro mecânico para alcançar a cidadania. Segundo dados do Ministério da Saúde, as 18.650 equipes do programa haviam atendido, até 2009, 87 milhões de brasileiros que, até então, engrossavam os contingentes de desdentados que tanto envergonham a identidade nacional.


Wanderley Guilherme saúda a desregulação da cidadania mas não acolhe com o mesmo entusiasmo o fim de um dos instrumentos de sua promoção, o imposto sindical. Seus opositores estariam filiados à interpretação de que Vargas domesticou o movimento sindical – “Não havia nada a ser domesticado, os sindicatos eram fracos; o que o imposto fez foi resolver o problema da ação coletiva num momento em que a esquerda era revolucionária, não queria fazer política nem se expor ao degredo pela ação sindical”.


Enquanto a cidadania era regulada pelo Estado, o imposto sindical, era, e continua sendo, privado. Ao contrário do fundo partidário, que é estatal, o imposto sindical é recolhido junto aos trabalhadores. Acredita que o sistema possa ser aperfeiçoado mas indaga o que aconteceria se caísse a compulsoriedade: “Os ganhos obtidos pelos sindicatos apenas serão usufruídos pelos filiados?”.


Diz que a oligarquização atinge tanto as organizações sindicais trabalhistas quanto as patronais, mas não acredita que o meio para combatê-la seja o fim do imposto sindical. Credita o engajamento da CUT e do PT na campanha pela sua extinção a uma compreensão enviezada da Era Vargas que pode jogar por terra um estímulo à ação política dos trabalhadores.


Não acredita que o governo Dilma esteja contaminado pelo que chama de sentimento antivarguista conservador que hoje abriga CUT e PT. Cita a participação de empregados no conselho de administração das estatais, promulgada por Lula e regulamentada por Dilma, como um sinal eloquente de continuidade. “É um ato histórico porque tem a ver com a participação de trabalhadores no destino da mais valia e na definição dos investimentos que vão garantir empregos no futuro; é uma participação política crucial”.


Os limites da continuidade, diz, serão dados pela necessidade – mais premente agora do que o foi sob Lula – de se arbitrarem perdas.


É isso que está em questão na discussão da política antiinflacionária. A desregulação da cidadania só foi possível pelo rompimento com o preceito de que não era possível crescer sem inflação e desigualdade. Crescimento exige mais poupança interna e isso não rimava com distribuição de renda. Wanderley Guilherme diz que esta foi uma das mais espetaculares rupturas dos últimos oitenta anos visto que os dois antecessores que o superaram em avanço do PIB, Juscelino Kubitschek e Ernesto Geisel, não conseguiram domar a inflação nem evitaram que a desigualdade aumentasse.


“Os radicais dizem que os bancos ganharam mais. É claro que os ricos ficaram mais ricos, mas os pobres ficaram menos pobres em maior proporção. Isso se deu porque o bolo cresceu e é possível que não o faça no mesmo ritmo neste governo. Dilma terá que impor perdas a alguns segmentos se quiser que a desigualdade continue a ser reduzida”, diz.


Terá ainda que se ver com o crescimento do potencial do eleitorado conservador – tema de seu mais recente artigo no Valor (30/09/2010) – decorrente da percepção da nova classe média de que, dados os limites à mobilidade social, solavancos sociais podem acabar por desalojá-la.


Pelas medidas até agora tomadas, em relação ao salário mínimo, ao aumento do valor do bolsa família, ao programa de combate à miséria e às medidas antiinflacionárias, não vê uma arbitragem que rompa com o padrão de governo que a antecedeu.


O que ainda está por ver, na arbitragem das perdas, é o que Dilma fará para manter os pressupostos da competitividade internacional do país, o investimento em tecnologia e inovação. A ausência desse esforço sacrificaria um crescimento sustentado do país sem o qual todo o resto, desta e de outras eras, ficaria comprometido.

Navalha
Este ansioso blogueiro não entende por aí que o professor Wanderley considere Lula o “coveiro” de Vargas.

Lula ampliou Vargas, aprofundou Vargas, foi além de Vargas.

Mas Vargas não acabou.

Maria Cristina, por exemplo, deve ter uma Carteira do Trabalho.

Férias de 30 dias

Deve votar.

E comprar gasolina num posto da Petrobras.

Não fosse Vargas …

A análise de Wanderley parece a este ansioso blogueiro muito diferente daquela que o Farol de Alexandria prometeu: enterrar a Era de Vargas.

O que ele enterrou foi o Brasil.

Para entender melhor o que Wanderley pensa de Lula talvez valha a pena recorrer ao imperdível artigo que escreveu na Carta Capital, onde mostra como Lula mexeu com a estrutura, os paradigmas do Brasil.


Paulo Henrique Amorim

 


Comentários

  • VJ

    Lula foi continuador da luta de Getúlio em defesa do povo pobre, mas Dilma, a traidora, que toma chá da tarde às custas do dinheiro dos nossos impostos com a esposa do Abiliô, não passa de uma malfadada Dutra de saias… Que venha logo 1951, digo 2014, para podermos botar o retrato do nosso Lulinha outra vez lá no Planalto. Fora Dilma traidora! Volta Lula já!

  • Bruno S. Alencar

    Após tentar bater insistentemente na Petrobrás, parece que a bola da vez do PIG é a Infraero. Tudo para transmitir a ideia de que o Brasil não vai dar conta de sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Bom mesmo seria se fossem os eventos realizados em Chicago.

  • Roberto Santos

    Vargas é Vargas, Lula é Lula. Soa óbvio, mas é para sessaltar que a era Lula tem um contexto e significado histórico diferente da era Vargas. Lula é um filho da era Vargas, mas não seu herdeiro.

    Até a era Lula, as campanhas políticas usavam sempre o bordão “muda Brasil”. Sómente com Lula é que esse bordão perdeu seu uso e foi substituído por “para o Brasil continuar mudando”. A era Lula foi a era da mudança, e que seja definitiva.

  • Lenir Vicente

    Eu só sei que o LUla reinventou o Brasil, mas Vargas também fez muito pelo povo.Dilma segue no norte traçado junto com o Nunca Dantes.É por isso que durmo tranquila.

  • Benedito Duzi

    Caro Paulo Henrique,

    Você não vai falar nadica de nada da grande vergonha que iremos passar de ter que IMPORTAR ETANOL????
    Isso é uma vergonha!!!!!Somos o maior produtor de cana-de-açucar do mundo e, vamos importar!!!!!!!
    que importemos gasolina até vai, ja que, o nosso petroleo não é suficiente para ser transformado em gasolina, ja que o teor de octanagem do nosso petroleo é baixo.
    Mas o etanol importar É UMA VERGONHA!!!!!

  • Thiago

    Mas o que o Alexandre disse é vrdfade, o Vargas era um ditador apesar das suas realizações. O lULA NESSE SENTINDO NÃO TEM NADA HAVER COM O VARGAS.

  • Thiago

    Este humilde navegante acha que o Lula superou Vgas e com louvor.

  • mauro

    Vargas e Lula são dois baixinhos de grandeza inigualável. Provavelmente os únicos Presidentes que serão mencionados nas aulas de História do Brasil daqui a 1000 anos.

  • Guilherme Cardoso

    Parabenizo o comentário feito pelo Alexandre, lúcido. Vargas não foi heroi, de 1929 até 1944, a internacionalização do capital teve interrupção, pois devido as guerras e a crise de super-produção,os paises capitalistas expansionistas, estavam preocupados com seus quintais. Assim getulio fez o que era preciso´para desenvolver a Elite brasileira, e colocar no cabresto o resto da sociedade. Direitos trabalhistas era coisa já latente na europa e EU, porém aqui por falta de racionalização do trabalho e produção, isso era, ainda, não praticavel. Os direitos trabalhistas, são então, um fruto desta racionalização, que permitiu que a acumulação anterior proporciona-se um alent o trabalhador, sem que este pudesse ir além, sindicalizado e conciente. Getulio é fruto da sua época, Lula esta a frente da sua, é humano, corajoso e roformista, como nunca antes na historia deste pais. Os dois tem um aspecto em como, beneficiaram a elite, getulio fez por que era o que lhe “mandavam”, lula fez por que era a forma para poder fazer um pouco aos desfavorecidos.

  • Adilson

    PHA,

    O Nunca Dantes foi o maior Presidente da história do Brasil, pois diferentemente de Vargas, Lula é estadista, demócrata e humanista. Lula fez profundas reformas sociais, especialmente na educação – tanto que os traídores da pátria moveram uma ADI no STF contra as ações afirmativas.
    Por oportuno, Lula é e sempre será assunto a ser estudo obrigatoriamente nas escolas, uma vez que contra tudo e contra todos do PIG quebrou paradigmas que foram incultidos na cabeça do brasileiro, tipo: “não é possível crescer e distribuir renda; o brasileiro não tem valor; o Brasil é um país de quinta categoria; temos que ser subservientes aos interesses dos EUA”, dentre outras faláceas plantadas pelos traídores do Brasil.

  • Romualdo

    Lula é o fio da história entre o velho e o novo trabalhismo. Ambos necessários em seu contexto histórico. O imposto sindical cumpriu um papel fundamental no passado. Hoje é instrumento de sobrevivência de sindicatos pelegos, cartoriais ou que simplesmente atentam contra a própria categoria. Esse papo de que o fim do imposto sindical deixará desamparados os trabalhadores que não se filiarem ao sindicato de sua categoria é uma falácia. Primeiro que aqueles sindicatos que hoje vivem às custas do imposto sindical, em geral, deixam desamparada toda a sua categoria, inclusive seus próprios filiados. Segundo, a não ser que seu dirigentes sejam bem burrinhos, não é interesse dos sindicatos combativos ignorar os não filiados de sua base. Ao contrário, o objetivo é, justamente, conquistar sempre mais e mais filiados.

  • josé gilvar gonzaga

    LULA é o melhor, viva LULA viva DILMA e viva a DEMOCRACIA.

  • José Henrique

    Lula fez um governo muito melhor que Getulio a quem também nós trabalhadores devemos muito, porém e a Dilma?
    Acho que ela quer derrubar o Lula, pois ele vendeu ao mundo o etanol brasileiro e o governo não intervem nesta escalada de preços do etanol e da gasolina em nosso país.
    Não vi nenhum blog de esquerda comentar este assunto ou pelo menos levantar a questão. Gostaria que CAF entrasse neste assunto catucando o Ministro das Minas e Energia que não sei quem é.

  • Marcos Antônio

    O Estadão, com a história dos presidentes vai fazer como fez o globo quando da eleição de 2006!
    Fazia uma comparação entre presidentes…
    Para FHC eles deram – surgiu o real…
    Para o Lula – Surgiu o PCC!
    Essa direita brasileira é muito BURRA!
    Folclórico!
    Inesquecível…

  • Vídeo da Universidade de Coimbra sobre o doutoramento honoris causa de Lula, com direito a depoimento do prof. dr. José Gomes Canotilho, um dos maiores especialistas vivos em direito constitucional. É claro que ele não lê o PIG.

  • Alexandre

    Meu avô foi toturado e assassinado nos porões da ditadura Vargas porque era um militante comunista, o que fez que meu pai crescesse orfão. Mas não é preciso ouvir minha história para saber que Getúlio era assassino e torturador: é fato público e notório. Ao pedirmos punição aos torturadores da Ditadura Militar enquanto aplaudimos Vargas, corremos o risco de legitimar a versão dos “dois lados.” Lula não tem nada com isso.

    • mauro

      À parte o seu drama pessoal, tu não querias que Vargas enfrentasse a elite café-com-leite com chocolates Kopenhagen e flores, né!
      Conte-me qual País ou Nação se construiu sem sangue!
      Vargas, claro, teve excessos, se não ele alguém sob o Governo dele; mas daí a compará-lo com os Militares de 64, fala sério….

      • Vinicius

        O fato de ter sido ditador não significa que não tenha contribuído para um Brasil melhor. Muitos direitos trabalhistas foram conquistados na CLT. Agora, ditador é ditador, portanto…

        Sou muito mais o Lula; ele enfrentou o PiG e governou até o final. Vargas, quando foi eleito democraticamente, não aguentou a pressão do PiG e se matou.

    • paulo

      Finalmente, alguém lúcido.

  • yacov

    Já esse ansioso e humilde navegante, pensa que LULA “concluiu” a obra de Vargas. Percebeu a grandeza e o potêncial do país e o tornou o Brasil forte, incluindo o povo à Nação. Daqui para frente são outros quinhentos… Mas penso que essa balada tem que continuar, mas, considerando agora outras variáveis, tais como a questão ambiental e a não submissão ao sistema financeiro, ou…

    “O BRASIL PARA TODOS não passa na glObo – O que passa na glObo é um braZil para TOLOS”

  • Vinicius Garcia

    Comparação desproposita de políticos que viveram épocas e momentos diferentes, e sinceramente, Vargas não foi tudo isso não, ele tinha também um quezinho elitista, basta ver que foi com Vargas que o Brasil se simpatizou com a direita Hitlerista, e fez perseguições a comunistas. Lula não merece tal comparativo.

  • Não tenham dúvida que Lula continuou a obra de Vargas! Até Lula pediu desculpa por falar mal de Vargas! O Brasil precisa de mais Vargas e Lulas!

  • Marcelo

    Vargas = ditador. O que ele fez com a Olga Benario foi de uma monstruosidade atroz.
    Lula = democrata.
    Portanto, Lula >>>>>> Abismo moral >>>>> Vargas.

  • São Leopoldo

    Lula é o legítimo susessor de Vargas, nunca dantes, ninguem podia imaginar.

  • O Brasil ainda precisa reconhecer o valor de Vargas, Jango e Brizola.

    Lula aproximou-se do que foi o PTB, Partido Trabalhista Brasileiro.

    Meu pai trabalhou na construção de ferrovias, como operário. Salário de fome, jornada ‘de sol a sol’.

    O PT não faz a menor idéia de quanto a classe trabalhadora avançou sob Getúlio. Os intelectualóides só dizem que a CLT é cópia da “Carta del Lavoro”. Nunca trabalharam de sol a sol.

  • antonio carlos martins

    Lula foi o Getulio….Ressuscitado no governo e no meio do Povo!!!Via Lula…Viva Vargas!!!

  • Isaac Antônio de Oliveira

    Esse “Nunca Dantes” vai acabar matando alguém do coração em higienópolis!

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