Quarta-feira, 19 de Junho de 2013

Publicado em 03/02/2010

Santayana: São Paulo não sequestrou o Brasil

O conversa Afiada tem o renovado prazer de publicar o texto do jornalista Mauro Santayana que está no Jornal do [...]

O conversa Afiada tem o renovado prazer de publicar o texto do jornalista Mauro Santayana que está no Jornal do Brasil: As notícias divulgadas e a análise de alguns jornalistas sobre a sucessão deixam, no leitor, a impressão de que o Brasil é refém do que se decidir em São Paulo. Assim, a disputa estaria entre o grande empresariado, que apoiaria Serra, e os trabalhadores que optariam por Dilma. O resto, como diria Ibrahim Sued, o astuto e bem pago louvador da grã-finagem deslumbrada, seria a periferia. A conclusão é apressada. Nas especulações destas horas se fala na pressão dos partidos da base aliada do governo sobre Ciro Gomes, a fim de que ele se candidate a governador de São Paulo. Podemos dizer tudo sobre Ciro, mas seria estultícia imaginá-lo ingênuo. Desde a juventude, Ciro tem agido de acordo com os próprios objetivos e a sua forma de entender o Brasil e o mundo. Podemos discordar de suas ideias e de alguns de seus atos, mas é ocioso duvidar de sua inteligência. Essa inteligência, somada a fatores subjetivos mas legítimos (como a afinidade entre os coetâneos), levou-o a anunciar apoio à candidatura de Aécio Neves, em favor do qual desistiria de disputar a Presidência. Não tem por que, nesta altura, embarcar na aventura paulista. Ele sabe que, qualquer venha a ser o seu desempenho do primeiro turno, é melhor negociar a parceria, na segunda mão do jogo, com as cartas abertas, ou seja, com os votos obtidos que lhe permitam, provavelmente, decidir o pleito presidencial. O quadro ainda não se encontra definido: as duas candidaturas, bem como a de Ciro, dependem das convenções partidárias, e elas costumam guardar surpresas. Como não podemos duvidar da inteligência de Ciro, seria de igual ingenuidade duvidar da inteligência de José Serra. Sua hesitação em assumir a candidatura à Presidência da República não se deve, como alguns apressados concluem, a um temperamento político bipolar. Ele não pode, ao aproximar-se dos 70 anos, correr o risco de ficar ao sereno durante quatro anos, pelo menos. Flores da Cunha, na irreverência da linguagem gauchesca, dizia que “político sem mandato é como rameira sem cama”. As últimas pesquisas – que tampouco podem ir além do momento em que se realizam – indicam que a candidata de Lula se encontra em ascensão e poderá cruzar-se com Serra em algum e próximo momento. Enquanto isso ocorre, o resto do Brasil assiste, com perplexidade, ao que se passa em São Paulo. Os interesses federativos são desprezados pelos dirigentes paulistas dos dois grandes partidos. Não só dos dois: o PMDB também parece subordinado ao que a seção paulista resolver. Com a vocação de subalternidade que a acompanha desde a sucessão de Itamar, a direção executiva do partido renuncia a disputar a Presidência, mas terá, mais uma vez, que confrontar-se com uma dissidência. O governador Roberto Requião se empenha em levar à Convenção Nacional a sua postulação e, desta vez, com maior apoio do que teve Itamar em 1998, na tumultuada convenção em que baderneiros agrediram os delegados, sob os olhos complacentes do então – como hoje – presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer. O mais grave é que tanto os interesses regionais quanto o interesse nacional como um todo estão sendo relegados ao segundo plano pelas conveniências de São Paulo. Com o maior respeito pela grandeza do grande estado e de sua capital, a metrópole do Piratininga não é a Roma da República e dos césares (apesar da divisa de suas armas, non ducor, duco). O Brasil é uma federação de estados de direitos iguais, na qual um cidadão dos sertões mais pobres é igual ao privilegiado morador dos jardins paulistanos. E em que todos os estados-membros dispõem de homens públicos honrados e preparados para o exercício da suprema magistratura da República. Os partidos só pensam no marketing político e na “armação de palanques”, sobretudo os eletrônicos do horário eleitoral. Já era tempo de se discutirem as ideias e os problemas do Brasil e do mundo. As horas começam a exigir definições, sob o risco de que, por falta de debates que estimulem o eleitorado a pensar o Brasil, tenhamos a mais alta taxa de abstenções desde a redemocratização. Os grandes interesses de São Paulo não podem confinar o Brasil dentro de seu próprio círculo de giz.

Artigos Relacionados

  • Nenhum Artigo Relacionado

Comentários

    Deixe seu comentário...

    "O Conversa Afiada não publica comentários ofensivos, que utilizem expressões de baixo calão ou preconceituosas, nem textos escritos exclusivamente em letras maiúsculas ou que excedam 15 linhas."

    •